Comportamento

À procura da filha

Há 15 anos, Ivanise Espiridão da Silva busca pela filha que desapareceu misteriosamente. Enquanto espera pelo reencontro, ela ajuda outras mães a reencontrar os seus filhos, através da Ong Mães da Sé

Por Elliana Garcia /Foto: Plinio Zúnica
eliana.garcia@arcauniversal.com

A fé e a esperança são os combustíveis que dão força a Ivanise Espiridião da Silva (foto acima), de 49 anos, para persistir em uma luta que ela não tem ideia de quando vencerá. Há 15 anos, sua filha, Fabiana Espiridião da Silva, que estava com 13 anos (foto abaixo da época), desapareceu quando voltava da casa de uma amiga. Mesmo com um imenso vazio no peito e diante de tantas perguntas sem respostas, Ivanise não deixa de confortar mães que também vivenciam esse drama.

Ivanise nasceu em Alagoas, trabalhava na roça e ajudava a mãe a cuidar de outros nove irmãos menores. Casou-se aos 18 anos e foi para São Paulo em busca de uma vida melhor. Um casamento estabilizado, duas filhas – Fabiana e Fagna, de 13 e 12 anos, respectivamente – que estavam entrando na adolescência. A alagoana estava feliz da vida, pois, aliado a isso, tinha voltado ao mercado de trabalho como operadora de caixa de uma grande loja e cursava o primeiro ano de Direito. O futuro não poderia ser mais promissor. Mas, em 23 de dezembro de 1995, ela viu a vida tomar outro rumo.

Naquela noite, Ivanise chegou em casa por volta de 21h e em seguida caiu um forte temporal em São Paulo. A filha Fabiana havia ido até a casa de uma amiga, a poucos metros de sua residência. Quando a chuva passou, Ivanise foi à casa da amiga buscá-la. “Quando cheguei lá, a amiga de minha filha disse que a Fabiana não estava. Ambas tinham ido à casa de outra colega de escola e, na volta, elas se despediram e cada uma foi para a sua casa”. Fabiana estava há 120 metros de casa quando foi vista pela última vez.

Busca solitária

A partir dali, começava uma busca incessante. Ivanise começou a procurar a filha nas ruas próximas e, por volta das 2 da manhã, sem ter conseguido resultado, foi à delegacia dar queixa de desaparecimento. Lá, soube de um maníaco que vinha atacando as mulheres na região. Chegou a pensar que a filha poderia ter sido vítima dele, pois embora tivesse 13 anos, Fabiana já tinha o corpo de uma mulher. Durante os 3 meses seguintes, todos os dias ela ia ao Instituto Médico Legal (IML) verificar se a filha estava entre as vítimas de atropelamento ou de violência sexual que chegavam. “Me disseram que depois de 72 horas no IML, se não houvesse reconhecimento, o corpo seria enterrado como desconhecido”, relata.

Naquela época, Ivanise fazia uma busca solitária. Os meios de comunicação não se interessavam pelo assunto. Em uma viagem para o Rio de Janeiro para divulgar na televisão o desaparecimento da filha, ela conheceu a amiga Vera, que morava em São Paulo e também tinha uma filha desaparecida. Mas será que na capital paulista só existiam ela e Vera que tinham filhos desaparecidos? De volta a São Paulo, ela deu uma entrevista para um jornal e deixou o telefone para que outras mães de desaparecidos entrassem em contato com ela.

Transformando a dor em esperança

O seu telefone não parou de tocar. Em 2 dias, 100 pessoas tinham ligado para ela. Em uma semana, Ivanise teve que escolher um local para o encontro. E a Praça da Sé, que sempre foi marcada por grandes atos da sociedade civil, além de ser o marco zero de São Paulo, era o local propício para esse encontro. Quando ela chegou ao local, às 9 da manhã, mais de 100 pessoas, que assim como ela estavam em busca de familiares desaparecidos, a esperavam.

“Era uma cena bonita, mas ao mesmo tempo muito triste. Fiquei espantada, pois não tinha noção da quantidade de pessoas desaparecidas. A partir daquele dia eu não estava sozinha, não era mais a única pessoa que estava vivendo aquele drama.”

Nascia ali, no dia 31 de março de 1996, a Associação Brasileira de Busca e Defesa a Criancas Desaparecidas (Abcd), que a sociedade intitulou de “Mães da Sé”.

Esse movimento ganhou destaque na mídia, empresas começaram a se oferecer para divulgar fotos de desaparecidos em embalagens de produtos. E em 15 anos de trabalho, a “Mães da Sé” já localizou 2.463 pessoas desaparecidas. Essa esperança do reencontro com a filha foi o que deu forças a Ivanise para continuar lutando. Sua vida mudou completamente com o desaparecimento de Fabiana. “Tive muitas perdas. Tinha uma família até o dia 23 de dezembro de 1995. Hoje, só restou eu e a Fagna, minha outra filha. Meu casamento acabou, e com o desaparecimento vieram problemas emocionais e de saúde”, relata.

A falta

Ivanise diz que sempre foi muito amiga das filhas, uma mãe participativa. Ajudava-as em todos os sentidos. “Projetei um futuro para elas. Primeiro os estudos, depois imaginava que elas iriam casar, me dar netos. De repente, todos aqueles projetos foram interrompidos. Quando você tem um filho que morre, você tem um luto real. Quando ele desaparece, é muito pior. Você vive um luto inacabado”.

Mas ela teve que aprender a conviver com essa dor. “Foi um processo de adaptação. Nunca vou me acostumar a viver sem a minha filha. Se eu tivesse enterrado a minha Fabiana, eu já teria me acostumado com a ideia de nunca mais vê-la. O que me mata a cada dia, aos pouquinhos, é não saber o que aconteceu. É a incerteza. Por mais que eu tente preencher o meu tempo com as mães que também passam por esse drama, o vazio que a minha filha deixou dentro de mim é muito grande. Não sei explicar a sensação. É como se alguém tivesse arrancado uma parte do meu corpo. Há dias em que essa ferida dói mais. É uma dor tão grande que chega a doer a alma. Não posso explicar em palavras o tamanho dessa dor. Hoje, Fabiana está com 29 anos. Como estará o seu rosto? Ela engordou? Casou? Ela é feliz? Vou vivendo de possibilidades. Mas a certeza de que ela está viva é o que tem mantido a minha esperança nesses 15 anos”.

A Organização não governamental (Ong) “Mães da Sé”, www.maesdase.org.br, trabalha em conjunto com vários órgãos públicos, como Delegacia de Desaparecidos, Vara da Infância e Juventude, Conselhos Tutelares, Polícia Militar e Guarda Civil Metropolitana. Após fazer a ocorrência policial de desaparecimento, é feito um cadastro na Ong, que divulga a foto do desaparecido.

5 Comentário(s)

lucy Postado em:

pior que a dor da morte é a dor da incerteza..não saber onde esta,como esta,se esta com alguem,se esta se alimentando,se ta passando fome ,sede..se dormiu,enfim..o vazio que nao se pode preencher com nada,ao nao ser um fio de esperança e mais nada...que Deus console os coraçoes dessas maes,

Miriam Postado em:

Essa mulher é uma GUERREIRA. Tento imaginar a dor que passou e que ainda se esconde nesse íntimo. Pois mãe sempre será mãe.Essa matéria, com certeza, trará novo ânimo para outras mães, que já até perderam as esperanças. creio que essa GRANDE GUERREIRA um dia encontrará a sua princesa, pois para Deus nada é impossível.Parabéns, por essa grande matéria.

Eva Eliane Postado em:

Êsse é um drama de milhões de mães que tem seus filhos desaparecidos. Mas apenas quem passa por isso é que entende, porque é como a Ivanise disse, é como se tirasse um pedaço dela, e não é por menos, pois é um ser que é criado com todo o cuidado, e quando acontece isso é como se algo fosse estirpado. Mas é necessário que a pessoa busque em Deus fôrças, para continuar lutando.

Flaviane farias Postado em:

A DOR DE UMA MÃE! NEM A CIÊNCIA PODE EXPLICAR, MAS SÓ DEUS PODE AMENIZAR A DOR DE PERDER UM FILHO,QUE AMAMOS DESDE O VENTRE,QUE SORRIMOS ,CHORAMOS..... MAS SEMPRE JUNTOS. AFINAL, FILHO É UMA PARTE DE NÓS, É DOLOROSO NÃO SABE ONDE E AONDE ESTÁ! É COMO UMA DOENÇA TERMINAL,AOS POUCOS VAI NOS MATANDO,MAS TEM QUE TER FÉ E ESPERANÇA, POIS A CERTEZA VEM DE DEUS E SÓ ELE PARA FAZER UM MILAGRE , E TRAZER DE VOLTA O FILHO PERDIDO! PARA DEUS NADA É IMPOSSÍVEL!

Laura Postado em:

A incerteza deve ser mesmo a pior coisa para quem fica à procura do seu ente querido. Desejo muito sucesso nos reencontros. Parabéns ao Arca pela iniciativa.

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