Comportamento

Ele somente aproveitou as oportunidades e venceu

Com muita humildade, sinceridade e trabalho, Elias marcou sua trajetória de vida

Por Tany Souza / Fotos: André Moura
tany.souza@arcauniversal.com

Imigrantes nordestinos e pobres. Este é o início da história de muitas famílias que chegam a São Paulo em busca de novas oportunidades. Mas Elias Pereira Sobrinho, um dos 12 filhos de José e Quitéria, se esforçou e se destacou.

Sua história de vida vai muito além de desejar crescer. Elias aproveitou todas as oportunidades da sua vida e fez de cada dificuldade um degrau para seu crescimento pessoal e profissional.

Ao chegar a São Paulo, seus pais moraram no bairro de Jardim Brasil, zona norte da capital, em uma casa de um cômodo e cozinha. "Éramos 14 pessoas em situação muito difícil. Acredito que vivíamos piores do que no sistema carcerário, porque lá pelo menos tem comida para todos e em casa tínhamos que dividir tudo o que tínhamos", conta Elias.

Sua infância foi muito difícil. Ele e seus irmãos não tinham o direito de comprar roupas novas ou comer o que se tinha vontade, era um pouco para cada um, e só. "Vestíamos roupas e sapatos doados que, quando não serviam mais para um, passavam para o outro irmão. Nossa infância se resumia em brincar no chão batido do quintal, com brinquedos artesanais que fazíamos."

A falta de roupas e sapatos novos não era nada se comparado com a falta de comida. "Mas o problema maior era a fome, porque para dividir era muito complicado. Lembro que minha tia dava umas cestas de alimentos e, uma vez, ganhamos muita mandioca e fizemos uma festa com isso. Tínhamos o mínimo para sobreviver."

Com o pai trabalhando como ambulante e a mãe sem tempo para arrumar um emprego, por ter 12 filhos para cuidar, a saída foi começar a batalhar a vida cedo. Com apenas 7 anos, Elias saía de casa para procurar qualquer trabalho que pudesse ajudar em casa. "Eu entregava marmita de bicicleta a um barbeiro e, enquanto ele almoçava, eu limpava o seu salão e recebia alguns centavos a mais por isso."

Depois vieram outros trabalhos, como vendedor vasos, agulhas, maçã do amor, engraxate de sapatos. "Para falar a verdade, onde eu via que conseguia tirar algum dinheiro para pelo menos sobreviver e ajudar minha família, eu não dispensava. E tudo era para dividir e não existia o que era meu ou dele, o que se tinha não se perdia nada."

E, assim, Elias e seus irmãos cresceram, sempre trabalhando para ajudar a família a sobreviver à selva da cidade paulistana, mas sem deixar os estudos de lado. "Tínhamos isso como prioridade. Largava o que estivesse fazendo para ir para à escola. Até nas férias, a diretora já avisava que abririam, para os pais não se preocuparem que teríamos onde comer. Sempre digo que nossos estudos começaram pelo estômago", se diverte.

A fase adulta e ainda mais desafiadora

Quando Elias estava com 17 anos, os pais resolveram viver em Tatuí, no interior do estado, mas ele decidiu que ficaria. "Eu fiquei e fui morar sozinho. Os meus irmãos mais novos foram com os meus pais e os mais velhos já estavam casados. Depois de um tempo, alguns voltaram para São Paulo e moraram comigo."

Ele trabalhou em uma empresa de madeira durante dois anos e estudava à noite. Esta disposição o levou à sua primeira frustração. Elias se surpreendeu quando este lugar fechou por problemas financeiros. "Eu fiquei muito triste, muito chateado, porque eu considerava aquele lugar como meu também, eu amava o que fazia."

Mas na segunda-feira, ele já estava empregado novamente e em um banco. "Fui rápido, tive a iniciativa. Eu nunca esperei que as coisas acontecessem e aprendi isso com o meu pai da maneira mais dura. Ele dizia: ‘Não adianta esperar, porque não tem nada aqui’.Hoje em dia as pessoas esperam tudo, se não der, não deu. Comigo nunca foi assim, ou vai ou passa fome." No banco, ele cresceu rapidamente com promoções e aumentos salariais. Dentro de quatro anos já era gerente e vivia de aluguel. Com 23 anos se casou com Idália e teve uma filha. "Nesse período, eu conheci um diretor de uma empresa que simpatizou muito comigo e até me chamava de filho. E um dia ele me disse: ‘você é muito bom pra ficar preso em uma empresa, você é diferente dos outros’."

Este comentário despertou Elias para algo que ele já via em sua família. Os irmãos e o pai – que depois de alguns anos voltou do interior –, vendiam produtos de limpeza na rua, com uma Kombi. "Todos eles nasceram para serem soltos."

O passo desafiador

Um dia, ele tomou uma decisão que mudou toda a sua vida, sem pensar no presente, mas vislumbrando o futuro. "Fui até o banco, pedi minhas férias e troquei meu Chevetinho 78 por uma Kombi 73. Enchi os tambores de produtos e comecei a trabalhar, sem saber para onde ia e quanto venderia. Fui o último dos irmãos que começou a trabalhar por conta própria."

Porém, esse era apenas o início de sua ousadia. "Ao voltar, pedi demissão. Como minha mulher não sabia o que eu tinha feito, eu falava para ela que o banco me deu alguns dias, mas isso foi somente para ela não se assustar. Depois de dois meses, não dava mais para manter o que eu disse e contei a verdade para ela."

Não foi fácil convencer os diretores que o banco perderia um dos seus melhores funcionários. "Um deles destacou que eu teria plano de carreira e um ótimo salário, mas eu somente disse: ‘tenho vontade de ser livre.’ E o diretor afirmou que as portas estariam abertas para mim."

Isso parece uma grande coisa, não fechar as portas de um emprego fixo, ainda mais sendo pai de família. Mas não para Elias. "Para quem vai trabalhar por conta isso não é bom. Eu disse a ele: ‘quer me ajudar? Pega esta chave, tranque a porta e jogue fora. Eu não posso ter opção, eu tenho que ser um vencedor’."

E como se a vida dele não tivesse nada de conquistas até agora, Elias recomeçou tudo e diariamente ele via o seu próprio negócio crescer e sustentar sua família. "Para se conquistar alguma coisa, você tem que ceder e abrir espaço para o novo."

O incrível foi que a cada desafio, ele só pensava em superar, e conquistar, e crescer.  "No início, eu vendia pouco. As pessoas falavam que a venda acontecia até meio dia e que depois não adiantava mais. Eu disse: vou ter que provar o contrário. E comecei a trabalhar de sábado e domingo também, e ficava até a noite."

O tempo passou e os lucros vieram. Com apenas um ano vendendo produtos de limpeza na rua, ele conseguiu comprar sua própria casa. E um tempo depois, comprou outro imóvel.

O segredo da conquista

Trabalhar, planejar, administrar de forma sadia e, claro, aproveitar as oportunidades. Esta é a receita de Elias. Ele acreditou em si, não esperou nada, aproveitou cada chance e não se deixou abater pela sua história de vida sofrida. "Você não está bem pelo que você faz, mas o que você faz está bem por causa de você. Você faz a diferença."

Hoje, ele é formado em Letras, mas não por se interessar pela área. A sua real preocupação foi somente vender produtos de limpeza. "Eu fui vender para uma universidade, mas eles só compravam se fosse de um aluno. Na mesma hora fui lá, prestei vestibular. Eu nem sabia que curso queria fazer, eu desejava vender."

E o negócio cresceu e ele começou a fabricar seus próprios produtos, em sua casa. "Não só fabricava, mas fazia toda a parte contábil, administrativa e até jurídica, para ter a empresa toda correta, conforme a lei." E foi assim que sua primeira empresa nasceu.

Depois de um tempo, Elias contratou manipuladores, profissionais e comprou um terreno maior para poder fabricar ainda mais. E este foi mais um marco de sua vida, mais uma trajetória que o levava direto ao sucesso. "Isso é algo natural. O único lugar onde sucesso vem antes do trabalho é no dicionário."

Ele também conta outro segredo para o crescimento. "O mistério maior está na administração. Porque você pode ser um grande comprador, um excelente vendedor, mas se não souber o que faz com o lastro, você tem problemas. Dinheiro não leva desaforo, se não souber direcioná-lo, vai te cobrar lá na frente."

Ensinamentos do desafio

A vida consiste em uma escolha. "Ninguém pode reclamar da vida que leva, porque foi a escolha da pessoa. Oportunidades todo mundo tem, de uma forma ou de outra. E na oportunidade você faz a sua sorte."

Elias ensina não só que o trabalho vem antes do sucesso, que a coragem de dar o primeiro passo deve ser maior que o medo da falta de sustento, mas também que tudo se aprende. "Quando eu fazia tudo sozinho, eu aprendi fazendo. O que você quer, você aprende, é só ter boa vontade."

O futuro

Ele estava com sua primeira empresa e já conhecia os empresários do mesmo ramo de negócio. "Eles me viam como concorrente e até recebi proposta para vender a minha fábrica para eles. Mas eu continuei, não abri mão. E ainda disse: vocês me esperam que daqui a 5 anos eu venho e compro a de vocês." E foi o que aconteceu. "E ainda temos duas em estudo para adquirir até o final do ano."

Apesar de tantas conquistas materiais, Elias destaca apenas uma grande lição de vida. "O meu maior legado é a vida difícil que eu tive quando criança. Quando se passa por uma dificuldade, se aprende a dar valor a um copo d´agua."

Com três filhas e dois netos, Elias não é só um exemplo de superação, mas de alegria, de vida, de ousadia e de simplicidade. "Tudo o que sou e o que posso ser eu aprendo em um livro que tenho, chamado Bíblia, que é um manual de procedimentos para uma vida melhor. O sucesso é você deitar e dormir."

2 Comentário(s)

marcia Postado em:

essa é uma linda e verdadeira historia real ... esse que aparece ai com elias perto do caminhao é meu primo gilberto que começou a trabalha com ele ..parabens pela sua vitoria

Kassia Postado em:

Que história linda, que lição de vida........ possa servir pra muita gente q no primeiro obstáculo já pensa em desistir. Deus continue te abençoando muito muito muito!!!!! aprendi muita coisa com o senhor no pouco tempo q esteve aqui em vila munhoz.... Obrigado e um abraço!!!

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