Comportamento

Grandes Personagens - Ana Néri

A primeira enfermeira do Brasil deixou a vida pacata no interior da Bahia para acompanhar seus filhos na Guerra do Paraguai, salvando inúmeras vidas de brasileiros e adversários

Por Marcelo Cypriano
marcelo.cypriano@arcauniversal.com

Parentes de soldados convocados para uma guerra sempre sofrem. A baiana Ana Néri – na época da Guerra do Paraguai (1864-1870), maior conflito armado internacional já ocorrido na América do Sul – poderia ser um desses familiares, já que seus filhos e irmãos seguiram para a frente de batalha. Mas não se conteve: requereu ao Governo a permissão para acompanhá-los ao front, oferecendo-se para ajudar os médicos de campanha. Foi a primeira enfermeira voluntária da história do Brasil.

Nasceu Ana Justina Ferreira em 1814, em Cachoeira do Paraguaçu, Bahia. Casou-se aos 23 anos com Isidoro Antônio Néri, capitão de fragata da Marinha do Brasil, recebendo o sobrenome do marido. Antônio ficava mais tempo em mar do que em terra, e Ana era cada vez mais responsável por todos os assuntos da família. Aos 29 anos ficou viúva e criou sozinha os três filhos (Justiniano, Antônio Pedro e Isidoro Filho). Os dois primeiros formaram-se em medicina e o terceiro seguiu carreira militar. Além de toda a ocupação de mãe, tocava fazendas de cana-de-açúcar, tabaco e algodão, tendo uma vida abastada, porém, esforçada.

Tempos de guerra

Em 1865, o Brasil formava a Tríplice Aliança com a Argentina e o Uruguai. Quando estourou a guerra contra o Paraguai, os filhos de Ana foram convocados, assim como dois de seus irmãos. Um sobrinho ofereceu-se como voluntário e também seguiu como soldado. Ver seus parentes indo à luta armada mexeu muito com a matriarca de 51 anos de idade. Tocada, escreveu ao presidente da província (cargo equivalente ao de governador nos dias de hoje). Requeria um posto na guerra como voluntária, alegando querer ficar perto dos filhos e atenuar o sofrimento dos combatentes como enfermeira, trabalho que dominava com muita propriedade. Aprendeu em um hospital local o ofício da enfermagem, ajudando sempre que podia, com muita presteza, em uma época em que não existiam cursos de formação para enfermeiros no País.

Entretanto, Ana não esperou a resposta do presidente baiano. Viajou para o Rio Grande do Sul, principal base brasileira para os militares que seguiam para o front, Tornava-se a primeira mulher brasileira a exercer a profissão oficialmente. Ajudava-lhe muito seus amplos conhecimentos de fitoterapia, a arte de utilizar matérias-primas naturais para fins medicinais.

Na frente de batalha, Ana demonstrou muita garra, coragem e amor ao próximo, ajudando muitos feridos. Vários puderam voltar para suas famílias por terem sido prontamente tratados pela enfermeira. Seus conhecimentos sobre cauterização pouparam muitos combatentes que poderiam sucumbir a ferimentos.

Sem olhar a quem

Ficou no front por quase 5 anos, tornando-se famosa por onde passava por causa de sua tenacidade, compaixão e competência. Ver tantas mortes de ambos os lados não a fez parar, embora ela tenha perdido um filho e um sobrinho nos combates. As mortes dos paraguaios aumentavam aos montes, massacrados pelo exército da Aliança em um dos episódios mais sangrentos e vergonhosos da história sul-americana. Seu dever se sobrepunha inclusive ao patriotismo: tratava com a mesma compaixão soldados paraguaios que encontrava feridos, inclusive os torturados, o que não era muito bem visto por alguns militares brasileiros (ajudava-a o fato de seus dois irmãos serem oficiais de alta patente). Mesmo assim, arriscava-se e exercia sua função sem olhar a quem beneficiava. Salvou muitas vidas de soldados e civis dos quatro países que participavam do embate, incluindo crianças do lado paraguaio “convocadas” para guerrear (muitos foram os menores mutilados e mortos na carnificina).

Assunção, capital do Paraguai, foi sitiada pelo Brasil (como mostrado na foto ao lado). Usando recursos financeiros próprios, oriundos de herança familiar, Ana montou uma enfermaria-modelo no local. Em meio a muito trabalho, a brasileira adotou três crianças – filhos de pais desaparecidos em combate. No fim da guerra, levou-os com ela para o Brasil. Recebeu do imperador D. Pedro II uma medalha e uma pensão vitalícia para cuidar dos novos filhos.

Mas a homenagem não foi dada somente pela corte. O povo da capital brasileira, então o Rio de Janeiro, a recebeu com uma calorosa festa nas ruas. Foi acolhida com uma chuva de pétalas de rosas. Uma numerosa caravana de baianos seguiu para a corte para a recepção. Na Bahia, em 1870, recebeu condecorações da província e ocupou lugar de honra na Câmara Municipal de Salvador.

O médico Carlos Chagas, então diretor do Instituto Oswaldo Cruz, homenageou-a, colocando o nome da valorosa combatente na primeira escola de enfermagem do Brasil, que primava pela qualidade. A antes chamada rua da Matriz, onde a enfermeira nasceu, foi renomeada rua Ana Néri.

Em 20 de maio de 1880, Ana morre aos 66 anos, no Rio, sepultada com muitas honras por parte das autoridades e do povo.

 

2 Comentário(s)

JOELMA SALES DA MATA Postado em:

PROCUREI EM VARIOS ARTIGOS, LIVROS ETC, NÃO CONSEGUI DESCOBRIR QUAL FOI A CAUSA DA MORTE DE ANA NÉRI..

Vanessa Postado em:

Muito legal a hostória da enfermagem, gostei muito e optei por ser enfermeira tbm..!

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