Comportamento
publicado em 07/02/2012 às 04h50.
Grandes personagens - Rei George VI
Há 60 anos, morria o homem cujo grande exemplo de superação inspirou o premiado filme "O Discurso do Rei"

Quando o rei George V, do Reino Unido, morreu, em 1936, seria substituído no trono por seu filho mais velho, Edward III. Menos de 1 ano depois, porém, o ainda não coroado rei revelou à corte sua vontade de se casar com uma socialite norte-americana, Wallis Simpson. Plebeia e duas vezes divorciada, ela não era bem vista pelos palacianos, inclusive pela tradição de os reis e rainhas só poderem se casar com outros membros da nobreza, mesmo que de outros países. Edward não se curvou à tradição. Abriu mão de ser rei e casou-se com Wallis. O Reino Unido precisava de um monarca, e, surpreso, subiu ao trono o irmão mais novo de Edward, Albert Frederick Arthur George, coroado como George VI.
Porém, Edward, como primogênito, foi educado durante toda a sua vida para o caso de assumir um dia o trono. George, nem de longe, mostrava a preparação e a segurança do irmão mais velho.
Infância difícil
Mesmo sendo membro de uma das famílias mais ricas e poderosas do planeta, George VI não teve propriamente uma vida fácil. Bisneto da rainha Vitória, o príncipe nasceu no dia do aniversário da morte de seu bisavô, Albert, recebendo seu nome. Entre os familiares, recebeu o apelido de Bertie.
O
pequeno Bertie tinha problemas emocionais que acabaram por prejudicar muito sua saúde física. Os pais eram muito distantes, deixando sua criação a cargo de babás e outros funcionários da corte designados para isso. Constantemente exposto a uma educação rigorosa, tornou-se extremamente tímido, tendo verdadeira aversão à exposição, mesmo perante pequenos grupos. Desenvolveu uma forte gagueira que o perseguiu até a vida adulta. O rigor da educação formal era tal, que foi forçado a aprender a escrever com a mão direita, embora fosse canhoto. Conforme ia crescendo, começou a apresentar sérios problemas estomacais, uma somatização de sua vulnerabilidade emocional.
Seguindo mais uma das muitas tradições reais, Bertie ingressou na Escola Naval. Embora com problemas emocionais e físicos, revelou-se um combatente de valor, atuando na Primeira Guerra Mundial a bordo do HMS Collingwood. Mesmo assim, atuou na importante Batalha da Jutlândia, em águas próximas à Noruega e à Dinamarca, tido até hoje como o mais violento embate marítimo da história. Embora tenha cumprido seu dever com honra, o príncipe teve de ser afastado logo depois por causa de um sério ataque de úlcera estomacal.
Albert também atuou na Força Aérea Real, até entrar para a vida civil, estudando economia e história na universidade de Cambridge. Teve de assumir deveres da realeza, embora sempre estivesse à sombra do irmão mais velho, bem mais popular entre os súditos.
Em 1920, Albert conheceu Elisabeth Bowes-Lyon, descendente de nobres britânicos. Começaram um sério relacionamento, mas a jovem recusou o pedido de casamento do namorado por duas vezes, pois não queria fazer os sacrifícios necessários para ser um membro da realeza. Enfim, cedeu, e ambos se casaram em 1923. O casal teve duas filhas, as princesas Elizabeth e Margareth.
A inesperada coroação
Apesar de toda a atribulação de seus deveres palacianos, Albert vivia bem com a esposa e as filhas. Não se achava um membro na nobreza, mas um oficial da Marinha, tendo chegado a almirante.
Com toda a crise de quando seu irmão abdicou ao trono, a corte determinou que Albert assumisse a coroa por ser o próximo na linha de sucessão, o que ele recusou. Bertie foi conversar com sua mãe um dia antes de o irmão comunicar oficialmente a abdicação, para lhe dar a notícia. Em seu diário, uma confissão: "Quando eu lhe disse o que tinha acontecido, fiquei cabisbaixo e chorei como uma criança."
Embora relutante, Albert assumiu o trono aos 41 anos de idade, coroado rei George VI, nome que evidenciava a sucessão oficial de seu pai, para restaurar a confiança do povo na monarquia, balançada pela abdicação de Edward.
O famoso discurso
Na década seguinte, o Reino Unido tomou parte de um dos mais sangrentos e importantes embates militares da história, a Segunda Guerra Mundial. O reino precisava, perante o mundo, assumir uma posição séria diante do avanço do nazismo alemão, que contava com o apoio da Itália e do Japão. Para uma passagem tão séria, o povo precisava de um rei que inspirasse confiança e força, algo bem distante da figura de Albert, exageradamente tímido e com uma gagueira das mais graves.
Em um exemplo de superação que entrou para a história, Albert, que unia na mesma pessoa o imponente rei George VI e o física e emocionalmente frágil Bertie, começou um tratamento mais rigoroso com seu fonoaudiólogo e grande amigo, o australiano Lionel Logue, pois precisava falar à nação em um importantíssimo discurso transmitido pelo rádio. A história foi contada no livro “O Discurso do Rei – como um homem salvou a monarquia britânica”, escrito pelo neto de Logue. O episódio, com algumas adaptações, foi transposto para as telas do cinema no filme “O Discurso do Rei” (2010), que conquistou quatro Oscars em 2011, incluindo os de melhor filme e de melhor ator (para o britânico Colin Firth no papel de Albert, em uma das mais marcantes interpretações de sua carreira). O filme, já disponível em DVD e Blu-ray, é um grande sucesso de público e crítica.
Elizabeth II
Ser um dos cabeças de uma das principais potências mundiais durante o maior enfrentamento bélico da história afetou profundamente a saúde de George VI, mesmo com a Inglaterra e os países aliados saindo vitoriosos em 1945. Já com sérios problemas estomacais, o rei também teve câncer de pulmão (chegou a ter o esquerdo retirado), muito pelo péssimo hábito do fumo, além de ter desenvolvido arteriosclerose. No início da década de 50, cada vez mais a princesa Elizabeth assumia deveres reais no lugar do pai (ambos na foto abaixo), por causa de seus constantes afastamentos médicos.

Em 6 de fevereiro de 1952, o rei George VI faleceu, aos 56 anos. Foi sucedido no trono pela filha, intitulada Elizabeth II, a atual rainha, coroada oficialmente no dia 8 de fevereiro, há 60 anos.
