Comportamento

O voo na 'pipa gigante'

Desde criança, Odilon desejava voar, e descobriu no parapente que o sonho poderia tornar-se real. Hoje, aos 39 anos, ele ajuda cadeirantes a desafiarem os próprios limites no céu. E até mesmo um ladrão se comoveu com essas ações

Por Jaqueline Corrêa
Jaqueline.correa@arcauniversal.com

Odilon Junior (foto abaixo) nasceu em Botafogo, no Rio de Janeiro, mas foi em Paquetá que passou grande parte da infância. Nesse período, começou a brincar de empinar pipa, correr e levantar voo – mesmo sendo apenas para erguer um pedaço de papel cortado em forma de losango.

E naqueles movimentos rápidos e rasantes da pipa, Odilon descobriu que também queria ser um pedaço de papel tão leve quanto aquele levado pelo vento, que tinha o privilégio único de contemplar a beleza de uma cidade domada por montanhas, vales, mares e florestas. E foi em um festival de pipas gigantes que viu uma cadeirinha presa a uma delas e pensou se ela não o aguentaria.

Esse pensamento ocorreu aos cinco anos de idade, quando viu que algumas crianças eram colocadas em um pequeno balanço amarrado a uma corda que também se prendia à pipa. O menino ficou maravilhado. Tanto, que pediu para ser colocado ali da mesma forma. Mas, agitado que era, Odilon não podia esperar nem mesmo por sentar. Foi só ser amarrado para sair correndo, preso àquela pipa gigante, o suficiente para bater em uma pedra e sair rolando na areia, machucando cotovelo, braço e pé. Apesar do susto, foi ali, naquela queda, que ele já sabia o que ia querer ser no futuro.

Aprendendo a voar

E assim, tudo foi acontecendo aos pulos. Aos 17 anos ele foi para o quartel, onde conheceu o paraquedismo. Aos 24, foi apresentado à asa delta, em seguida ao parapente, e observou que neste último também havia uma cadeirinha e umas linhas que a prendiam. Então, Odilon reviu o sonho de criança, da época em que desejava voar naquela pipa gigante. E no primeiro voo, a sensação da infância veio à tona novamente: o vento no rosto, a paisagem nobre sendo glorificada do alto, o sabor do perigo adocicando o paladar.

Hoje, aos 41 anos, ele realiza esse sonho quase diariamente. Já são 5 mil vôos feitos em aproximadamente 17 anos de carreira como competidor, instrutor e piloto de voo duplo. Mas, tudo isso nem se compara com o início do curso, quando o medo de que algo desse errado o pegava de jeito: “Eu via alguns vídeos que mostravam vários acidentes, e isso me deixava com muito medo, até porque os equipamentos da época não eram dos melhores”, lembra.

E apesar de temer a morte, Odilon sabia que não poderia realizar o sonho de criança caso não tentasse. Então, começou a treinar. E muito. Porque estava certo de que para se ter a ousadia de enfrentar a natureza, só sendo muito bom para contemplar em vida o perigo da morte. Foi assim que o medo saiu. E com a experiência adquirida ao longo dos treinamentos excessivos, em apenas três anos tirou as habilitações de instrutor e de piloto de duplo. E foi essa coragem que o levou a ser também campeão de pouso de precisão.

O perigo desafiado

Enquanto Odilon achava que já havia superado quase tudo nesse esporte, surge um cadeirante para lhe desafiar. “Um garoto cadeirante, muito magro e tetraplégico, apareceu para voar comigo. Era uma gravação para uma reportagem”, conta Odilon.

Logo, aquele velho medo voltou. Não por ele, mas pelo rapaz que estava ali para quebrar uma regra da vida. Porque, já que a morte não havia levado aquele garoto no acidente de carro que sofrera, não haveria coisa melhor do que admirar-se da vida lá de cima, do céu, voando com suas pernas paradas e sentindo o vento uivando em seu rosto.

Mas até que tudo isso acontecesse, seria preciso uma série de providências. Odilon não possuía equipamento adequado para levantar voo com um cadeirante. A cadeira do parapente era inadequada, sem falar que o passageiro deve correr junto com o piloto para que ambos saiam do chão. Assim, tudo ia contra aquele momento desafiador – até as dúvidas surgirem, e a certeza vir logo em seguida:

“Escuta, Odilon, você vai mesmo decolar com esse garoto? E o pouso?” Tudo era arriscado demais, e um erro poderia ser fatal para os dois.

“Deus ajuda na hora do pouso”, ele respondeu.

E foi essa ajuda que garantiu a vitória de todos. O rapaz foi conectado à cadeira do parapente e os amigos fizeram o papel das pernas dele. O frio na barriga, a sensação de loucura, o sonho às vésperas de se realizar. Apenas alguns passos, e a metamorfose prestes a acontecer. Na hora de levantar voo, Odilon pelo meio, um amigo de um lado, o outro de outro, e o nobre passageiro apenas aguardando a largada. Apenas alguns passos, alguns rápidos passos, e os dois decolariam sem precedentes. O jovem estava maravilhado e Odilon, por trás, controlando os movimentos, observando a direção, sentindo a descida para o momento exato do pouso. Lá embaixo, os amigos apenas aguardando para transformarem-se novamente nas pernas firmes do rapaz.  

A partir daí, Odilon percebeu que seria possível proporcionar essa mesma sensação a outros cadeirantes. E por isso, quando não está voando com clientes, mergulha no ar com um idoso ou um portador de necessidade especial, num esforço totalmente voluntário.

O ladrão comovido

E toda essa dedicação comoveu até mesmo um ladrão, que levou o HD externo de Odilon de uma lan house. Uma fração de segundos, e isso foi o suficiente para que o aparelho fosse levado sem nenhum remorso.

Mas, depois de achar que tudo estava perdido, todas as imagens e vídeos de vários voos armazenados, eis que o próprio ladrão telefona e diz que se emocionou com tudo o que acabara de ver.   

"O ladrão ligou dizendo que havia 'achado' o HD. Disse que viu uma senhora (foto acima), uma cadeirante (foto ao lado); que era emocionante; que aquele material devia fazer parte do meu trabalho, e que por isso resolveu entrar em contato", explica.

Mas, a cara deslavada ficou mesmo por conta da célebre pergunta, como se o bem intencionado fosse ele: 'Tem recompensa?'

Mesmo sabendo que não receberia nada, o oportunista resolveu devolver o produto “achado”, entregou o HD e foi embora.

Odilon continua voando com clientes e cadeirantes, e o ladrão ‘redimido’ resolveu sumir de vez.

Para conhecer mais sobre o trabalho de Odilon, clique aqui.

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6 Comentário(s)

Dione Lucas Postado em:

Vc nasceu pra voar alto literalmente, parabéns pela linda matéria que foi descrita de uma forma verdadeira e maravilhosa de resumir o sonho e desejo de um menino, é fato que todo sonho se torna realidade quando merecemos e persistimos em alcançá-lo! Continue fazendo o que vc gosta e dando oportunidades a pessoas que sonham como vc... voar, voar, subir, subir! bjuuusss!!!

Aline Postado em:

Adorei essa breve apresentação da sua vida... eu te adimiro muito...e espero q vc continue crescendo e dando essa oportunidade de voar para várias pessoas ... é realmente lindo e intenso viver uma aventura dessas ... parabéns!!!

Florzinha Postado em:

carla Postado em:

Muiito bacana essa matéria. Deu até vontade de sentir esse vento no rosto também, rs. Bj

Ciro Postado em:

Excelente reportagem de um profissional que carrega consigo sua paixão e assim a transmite aos que chegam perto. Parabéns, Odilon.

Beatriz Postado em:

É atraves de reportagem como essa que a gente para e pensa, o que eu posso fazer ou o que eu tenho feito para ajudar o meu próximo? Pois o que não falta são pessoas precisando de uma mão amiga. So precisamos prestar mais atenção ao nosso redor, e servir, em vez de ficarmos o tempo todo querendo sermos servidos.

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