Comportamento
publicado em 07/11/2011 às 04h50.
Professor dá aulas em universidade onde entrou como faxineiro
"Quando aceitei o cargo no setor de limpeza, não dei ouvidos à s crÃticas que recebi, pois acreditava que Deus havia reservado algo especial para mim naquele lugar"

Desde os 15 anos de idade, o trabalho faz parte da vida do professor universitário Ednei Monteiro, de 36 anos. Foi em um supermercado de bairro – em Diadema, região metropolitana de São Paulo – que ele deu início à sua longa trajetória profissional, que o levaria a realizar um antigo sonho de cursar e lecionar em uma universidade.
Todavia, o professor não imaginava que no seu primeiro contato com o mundo acadêmico, em vez de cadernos e livros nas mãos, ele teria vassouras e baldes – ferramentas de trabalho de um faxineiro, função que aceitou desempenhar ao ingressar no quadro de funcionários da mesma instituição de ensino onde hoje dá aulas.
O emprego no setor de limpeza da Universidade Metodista – região do ABCD Paulista – surgiu em 2002, após ele ficar um período de três meses desempregado. Sua última ocupação havia sido como promotor de vendas, em uma multinacional de alimentos. Mesmo assim, ele não teve medo de assumir o desafio de atuar em uma área na qual nunca havia trabalhado, vista com bastante desconfiança por muita gente.
“Um amigo me disse que estavam contratando pessoas na Universidade, mas não especificou para qual função. Ao chegar à recepção do campus, fui indicado para falar com um dos encarregados, que fez uma breve entrevista comigo e me perguntou se eu aceitaria trabalhar na área de limpeza, usando um uniforme de faxina”, recorda Monteiro, que não precisou pensar muito para responder que sim, por considerar aquele um emprego digno como qualquer outro.
Apoio da família, críticas dos amigos
Apesar de ter tido o apoio da família, o ex-promotor de vendas não encontrou o mesmo incentivo dos antigos colegas de profissão. “Quando aceitei o cargo no setor de limpeza, não dei ouvidos às críticas que recebi, pois acreditava que Deus havia reservado algo especial para mim naquele lugar.”
O que era sinônimo de humilhação para muitos, para o professor representava uma possibilidade de progredir, mesmo não tendo tido nenhuma promessa de ninguém da instituição de que isso realmente iria acontecer.
“Nunca tive condições financeiras para dar sequência aos meus estudos. Havia concluído o ensino médio, mas sempre quis fazer uma graduação. Só após ser aprovado para a vaga na faxina, fiquei sabendo que teria direito a uma bolsa de estudos na própria faculdade. Então, vi que aquilo seria a concretização de um sonho”, conta ele, que ficou ainda mais motivado.
Com isso, o professor sentiu-se estimulado a desempenhar seu trabalho, mas, para ter direito à bolsa, precisou esperar um período de carência, de seis meses. Nesse meio tempo, estudou bastante para prestar o vestibular. Sem condições de pagar um cursinho, aproveitava o acesso que tinha à biblioteca da faculdade e, nos horários vagos, consultava livros, revistas e também fazia pesquisas na internet.
“Eu já estava havia onze anos sem estudar. Mesmo assim, fiquei em 38º lugar no processo seletivo, entre mais de 80 alunos que prestaram vestibular para a faculdade de administração, curso que escolhi”, destaca.
Ele queria ser útil
Como faxineiro, Monteiro não se limitava a limpar carteiras e assoalhos. Ele queria ser útil e, por isso, sempre se oferecia para ajudar pessoas de outros setores, instalando móveis e lousas, limpando persianas, o que foi despertando a atenção dos seus superiores. Por conta disso, passou pouco tempo no setor de limpeza, mas se diz grato pela experiência, que considera um grande aprendizado.
A segunda oportunidade que teve na Universidade foi no setor de manutenção. Um tempo depois, tomou conhecimento de que haveria um processo seletivo para área de comunicação visual da instituição, que estava apenas começado, e foi convidado a participar, sendo escolhido em seguida. Na época, já estava cursando administração havia um ano.
Primeiros passos como professor
No novo setor, mais próximo da área de docência, o desejo de dar aulas, que parecia tão distante para Monteiro, foi sendo cada vez mais fortalecido. Também foi nesse período que ele passou a ter mais contato com os alunos, que frequentavam o laboratório de publicidade e propaganda e comunicação mercadológica da faculdade.
“Comecei a dar suporte aos universitários no laboratório. Ajudava alguns professores, até que um deles me perguntou se eu tinha interesse em dar uma aula, falando sobre a minha rotina de trabalho, que tinha a ver com o conteúdo do curso. Dei a primeira aula e, depois, vieram várias outras”, lembra.
Esse mesmo professor, após assumir a coordenação de alguns cursos à distância da Universidade, convidou Monteiro para ser um instrutor voluntário. “Ele falou que não tinha como me prometer nada, mas se eu quisesse ter contato com essa nova metodologia de ensino, online, eu poderia adquirir experiência como docente, o que agregaria bastante coisa ao meu currículo”, conta.
Na ocasião, ele já estava concluindo a graduação e aceitou mais esse desafio. Inicialmente, dava aulas online poucas vezes por semana, fora do seu horário de trabalho na área de comunicação visual da universidade.
Dedicação exclusiva à docência
Após concluir o curso de administração, já tendo bastante do seu tempo comprometido com as aulas voluntárias nos cursos à distância, Monteiro foi efetivado como professor tutor – cargo ao qual se dedica até hoje, de forma exclusiva –, passando a ser remunerado por esse serviço.
“Hoje, como professor, monto atividades, faço correções de exercícios, respondo mensagens dos alunos, esclareço dúvidas conceituais, entre outras atribuições. Já conclui uma pós-graduação em Marketing, e pretendo dar sequência à minha carreira como docente. Estou montando um projeto para iniciar em breve o meu mestrado. Com isso, vou poder dar aulas presenciais, mas não pretendo deixar de lecionar pela internet”, ressalta.
Para ele, todas as suas experiências profissionais anteriores o ajudam a enxergar o mundo acadêmico de forma diferente, sem estar limitado às teorias, já que, muitas delas, vivenciou na prática.
“Aconselho as pessoas a nunca desistir diante das barreiras que encontram. É importante fazer o que gostam e com vontade, mas sem ter medo de encarar qualquer tipo de trabalho”, conclui.
Leia mais sobre esse assunto
COMPARTILHAR
3 Comentário(s)
fabiano Postado em:
Mais um exemplo de vida pessoas assim que me motivão a vencer na vida com diginidade e esperença, parabens a esse brasileiro!!!
maria divina Postado em:
parabens professor a minha é semelhante a sua
Douglas Sao Fidelis RJ Postado em:
Mais um Grande exemplo que pra se vencer na Vida, pode sim começar por baixo sem passar por cima dos outros ou ate mesmo com o famoso(geitinho brasileiro) que la na frente tem dando tanta dor de cabeça!!!
