Comportamento

"Sobrevivi para contar"

Immaculée Ilibagiza sofreu, mas teve esperança e aprendeu o que é o perdão

Por Tany Souza / Fotos: divulgação e arquivo pessoal
tany.souza@arcauniversal.com

Uma moça de apenas 22 anos. Pouca idade para viver tantos sofrimentos. Jovem, estudante e filha mais nova de dois irmãos homens, pertencia a uma família unida e respeitada.

Em 1994 Immaculée Ilibagiza vivia em Ruanda, onde havia uma rivalidade entre as tribos tutsis e hútus, mas ela não entendia muito bem qual era a diferença dessas etnias. O que importava para ela era estudar e voltar para a casa dos pais.  Mas naquele ano, tudo mudou.

Os hútus conseguiram matar o presidente do país, o que deu início ao maior massacre da história. Em plena comemoração da Páscoa, a família foi obrigada a se separar para tentar sobreviver (foto ao lado). Em todos os programas de rádio e TV a ordem era que os hútus entrassem nas casas e matassem todos que encontrassem, do mais novo ao mais velho. Toda a fronteira do país foi fechada e as pessoas não podiam sair de suas casas ou do lugar onde estavam. "Eu ouvia aquilo e não acreditava que estava acontecendo no meu país, parecia algo impossível. Mas realmente aconteceu."

O pai de Immaculée (foto ao lado) ordenou que ela procurasse ajuda e abrigo na casa de um pastor, amigo dele, que pertencia a outra tribo. "Meus irmãos ficaram surpresos com o que meu pai me pediu para fazer, pensaram que eu seria morta por causa disso, mas eu confiava nele. Foi o que me salvou", conta ela.

O sofrimento

Para não ser massacrada a sangue frio com sua família, Immaculée foi colocada em um pequeno banheiro, com mais sete mulheres desconhecidas (a mais nova com 7 anos), onde ficou durante três meses. "Lá não podíamos conversar, fazer nenhum tipo de barulho para que não fôssemos encontradas. Comíamos o resto de comida dos filhos do dono da casa, que pertenciam à tribo que matou meus pais e irmãos."

Era desse cubículo que ela e as outras meninas ouviam as vozes dos assassinos e os gritos das vítimas. E foi lá também que Immaculée começou a pensar e falar com Deus.

"Eu comecei a duvidar da existência de Deus. Pensava que, se ele existisse mesmo, não estaria acontecendo isso com os meus amados. Mas ali era uma lição que estava começando a ter: a esperança e o perdão."

A ordem era exterminar a todos. Para isso, eles entravam em todas as casas, olhavam todos os cômodos e até dentro de malas. "Para que nenhum bebê sobrevivesse."

Durante esse tempo escondida, Immaculée passou fome e muitos momentos de terror. Ela se perguntava, "por quê?", mas aprendeu a pensar "para quê?".

Foi naquele cubículo e naquelas condições desumanas que Immaculée teve muitas experiências com Deus. A primeira foi contra o seu cansaço e indignação por tudo o que estava acontecendo. "Eu ouvia duas vozes na minha cabeça. Uma me dizia que era para abrir a porta e sair, porque eles iriam me encontrar de qualquer jeito. A outra era para eu continuar acreditando que eu sairia dali salva."

Em pleno sofrimento, com o corpo fraco, cansada de estar ali, emocionalmente abalada e descrente sobre o seu futuro, resolveu provar se Deus realmente existia. "Eu pedi a Deus que, se Ele estivesse comigo, se ele existisse, que os homens não nos encontrassem." E ela continuou ali, esperando o que aconteceria com ela.

Um dia, os hútus chegaram e invadiram a casa. Subiram no telhado, olharam pela janela do banheiro e entraram em todos os cômodos, enfim, vasculharam tudo. "Quando chegaram à porta do nosso banheiro, o homem foi tocar na maçaneta, mas tirou a mão e disse ao pastor: ‘Eu confio em você, sei que não esconderia ninguém aí dentro’. Depois disso, eu nunca mais duvidei que Deus existe", emociona-se.

Este era um sinal de que Deus estava com ela, de que tudo iria passar, mesmo não vendo uma saída e sabendo que todos que amava estavam mortos.

O perdão

Ela pediu para trazer uma Bíblia. Precisava entender o que estava acontecendo. "Quando eu lia sobre perdão e orava o Pai-Nosso, não entendia a parte que fala de perdão. Então, eu pulava esta parte, mas me sentia mentindo para Deus".

Foi nesta hora que Immaculée começou a entender o que é perdão. "Eu me ajoelhei e pensei: ‘Deus, se você sabe o que é perdoar, me ensina, eu quero sentir isso." A partir desse dia, ela começou a compreender que aqueles homens não sabiam o que estavam fazendo. Não eram eles que estavam matando as pessoas. "Eles colocavam folhas pelo corpo, gritavam e faziam festa quando exterminavam mais uma família. Pude entender que ali eram demônios."

Para todo o ato existem consequências. Mas aqueles homens não conseguiam enxergar isso, eles só queriam cumprir a ordem de matar a todos. "Eles estavam cegos pelo ódio."

Ela desejava compreender tudo o que estava acontecendo. "Deus me falou: ‘Se você tiver que passar por muito sofrimento, assim como Jesus passou naquela Cruz, será para entender que somos capazes de suportar e amar uns aos outros’. Quando eu senti este amor e o que era o perdão, comecei a pedir pelos assassinos, que eles tivessem uma nova chance de vida."

Já que não podia conversar, além de ler a Bíblia, Immaculée leu também um dicionário de inglês. "Foi neste tempo que eu aprendi a língua, mas não sabia se um dia eu usaria este conhecimento."

A liberdade

O massacre foi contido com a chegada da tropa francesa e da Organização das Nações Unidas (ONU).  Ao sair do esconderijo, Immaculée tinha perdido 23 quilos, carregava uma Bíblia, um dicionário de inglês e um coração pronto para perdoar. Em 3 meses foram mais de 1 milhão de pessoas assassinadas. Famílias inteiras destruídas. "Havia corpos por todos os lados, empilhados, podres. Eu pensava: ‘O que farei agora?’. Eu chorava muito e, por muitas vezes, tive vontade de morrer, mas Deus falava comigo, em todo o momento, que eu estava renascendo."

Foi quando uma senhora a encontrou e levou para sua casa. "Ela dizia que minha mãe era sua amiga e só estava viva por causa dela. Foi uma retribuição cuidar de mim.”

Após recuperar-se, passou a trabalhar na Organização das Nações Unidas (ONU) e começou a escrever um livro contando a sua história de sobrevivência. "Escrevi em três semanas. Pedia a Deus para me dar forças para colocar tudo em palavras. Chorei muito lembrando minha família e de tudo o que passei, mas ria também com minhas descobertas pessoais sobre Deus e fé."

Immaculée conheceu um escritor que a ajudou a publicar seu livro. "Eu fiquei espantada porque, quem leria uma história de alguém que viveu em Ruanda, um país tão pequeno?"

Em 1998 mudou-se para Nova York e continuou a trabalhar nos escritórios da organização durante vários anos. Teve a oportunidade de voltar para Ruanda, rever o lugar onde viveu com sua família e visitar os assassinos na prisão. "Eu os abracei e declarei o meu perdão. Eles só choravam, não conseguiam dizer nada."

O livro "Sobrevivi para contar" foi traduzido em 27 línguas e indicado como "Best Seller" Immaculée Ilibagiza foi homenageada no “Michael Collopy de Arquitetos da Paz" projeto que honrou legendários como Nelson Mandela. Foi reconhecida com o título de doutora honoris causa da Universidade de Notre Dame e da Universidade de Saint John, além do prêmio International Gandhi Peace Prize em 2007.

Hoje, ela é casada, tem dois filhos e uma ONG chamada Left to Tell Charitable Fund (Fundo de Caridade Sobrevivi para Contar) para ajudar as vítimas de genocídios, oferecendo apoio, paz e pregando o perdão. Viaja pelo mundo contando sua experiência de vida e sobrevivência. "Compreendi que minha batalha para sobreviver seria travada em meu interior. Se eu perdesse a fé, não sobreviveria. Não importa o que aconteça, há sempre esperança."

3 Comentário(s)

michelle Postado em:

Esse foi o livro mais surpreendente que já li... Me emocionei com Immacullé e me encantei com a forma que ela venceu o genocídio, mostrou realmente como se deve comportar uma pessoa tomada pela força da fé. Soube ser verdadeiramente humana mesmo na aflição, no medo, no desconforto em momento algum se mostrou enfurecida com Deus mas grata por ser ela um instrumento para que Ele pudesse realizar seus prodígios. tornando-se hoje a mais bela história de sobrevivência.

Flávia Postado em:

Muito forte essa história de vida, estou anciosa para comprar e ler esse livro, e vou dar para o meu marido ler na prisão, pois ele e os outros precisam de mensagens como essa, que a fé é o que nós temos ter independente dos problemas. A certeza da vitória.

Flávia Postado em:

Estou anciosa para comprar e ler esse livro, e vou dar para o meu marido ler na prisão, onde ele precisa de mensagens como essa, que Deus está com ele...

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