Mundo Cristão

Os caçadores da Bíblia perdida

Algumas liberdades criativas da ficção não estão tão baseadas nos fatos como se pensa, como ocorre na primeira aventura cinematográfica de Indiana Jones em busca de famoso artefato bíblico

Da Redação / Imagens: Divulgação/Paramount Pictures, Wikimedia, Thinkstock
redacao@arcauniversal.com

Certos filmes são levemente baseados em fatos para o enriquecimento do enredo. Alguns, inclusive, fazem uso de certas “licenças criativas” para incrementá-lo.

“Os Caçadores da Arca Perdida” (1981), de Steven Spielberg, apresentou ao público mundial o arqueólogo Henry “Indiana” Jones Jr. (Harrison Ford, na foto acima), professor universitário que não pensava duas vezes em se meter nas mais perigosas aventuras quando o assunto era recuperar artefatos históricos que, para ele, pertenciam ao povo e deveriam estar acessíveis em museus, e não nas mãos de ladrões e colecionadores particulares clandestinos. Em seu filme de estreia, “Indy” Jones teve a chance de encontrar um dos mais importantes artefatos de toda a história: nada menos que a Arca da Aliança, cuja confecção Deus ordenou a Moisés como marco de Seu senhorio para com o povo hebreu (Êxodo 25).

A famosa arca não tem um destino conhecido, o que permanece um dos grandes mistérios da humanidade. Spielberg, ele mesmo um judeu, dirigiu uma história escrita por Philip Kaufman e George Lucas, criador de outra saga mais do que marcante, “Guerra nas Estrelas”. O “pai” de Darth Vader aproveitou-se da história do objeto sagrado judeu como o mote para que Jones empreendesse sua primeira aventura cinematográfica, um dos maiores sucessos do cinema até hoje.

Só que há alguns furos na história de “Os Caçadores da Arca Perdida” que, caso a Bíblia tivesse sido melhor consultada, não ocorreriam – não que isso tire o mérito do filme, entretenimento da melhor qualidade feito com os melhores recursos que a indústria cinematográfica oferecia na época, que lançou um personagem icônico e fartamente imitado.

A arca continha as tábuas de pedra com os Dez Mandamentos, que Deus deu a Moisés no monte Sinai. Como vimos em Êxodo 32, ao descer, Moisés lançou as tábuas ao chão, irado por causa de os hebreus estarem em plena adoração a um ídolo, um bezerro de ouro. Indiana Jones, a certa altura do filme, explica que os cacos dessas tábuas foram recolhidos pelos judeus e depositados na arca. Contudo, a Bíblia o desmente. Na Palavra consta que Deus ordenou a Moisés que alisasse duas novas tábuas e subisse novamente ao Sinai, para que as palavras fossem reescritas nelas. E foi essa “segunda edição” dos mandamentos a depositada na arca.

“Naquele mesmo tempo me disse o SENHOR: Alisa duas tábuas de pedra, como as primeiras, e sobe a mim ao monte, e faze-te uma arca de madeira;

E naquelas tábuas escreverei as palavras que estavam nas primeiras tábuas, que quebraste,
e as porás na arca.

Assim, fiz uma arca de madeira de acácia, e alisei duas tábuas de pedra, como as primeiras; e subi ao monte com as duas tábuas na minha mão.

Então escreveu nas tábuas, conforme à primeira escritura, os dez mandamentos, que o SENHOR vos falara no dia da assembléia, no monte, do meio do fogo; e o SENHOR mas deu a mim;

E virei-me, e desci do monte, e pus as tábuas na arca que fizera; e ali estão, como o SENHOR me ordenou.”

Deuteronômio 10:1-5

 

Mas esse equívoco não é o único. Indy, que no filme é um excelente professor de arqueologia e história, diz que provavelmente a Arca da Aliança foi capturada pelas tropas egípcias do faraó Sisaque quando invadiram Jerusalém e saquearam o Templo de Salomão mais ou menos em 980 antes de Cristo (a.C.) – embora evidências históricas apontem que foi mais próximo a 930 a.C.). Esse saque realmente é contado na Bíblia:

 

“Ora, sucedeu que, no quinto ano do rei Roboão, Sisaque, rei do Egito, subiu contra Jerusalém,

E tomou os tesouros da casa do SENHOR e os tesouros da casa do rei; e levou tudo. Também tomou todos os escudos de ouro que Salomão tinha feito.”

1 Reis 14:25-26

 

 

Muitos historiadores acreditam que a arca foi levada nessa época para o Egito ou para a Etiópia (onde alguns acreditam que ela esteja até hoje). Os argumentistas e roteiristas usaram essa versão para dar explicação à retirada da arca de Jerusalém. Entretanto, a Bíblia não a confirma. Embora esteja claro que houve o grande saque ao Templo, não está escrito na Palavra que a Arca da Aliança estava entre os pertences levados. E as escrituras sempre foram muito claras quando o assunto era alguém se apoderando do grande baú, o objeto mais sagrado para os judeus. Há, inclusive, uma versão não oficial dos fatos, de que os levitas (os únicos autorizados a tocá-la, além dos sacerdotes) fugiram com o artefato pelos vários caminhos subterrâneos da cidade, para não deixá-la cair nas mãos inimigas.

Hoje, sabemos que a aliança com Deus é algo bem além de artefatos e prédios feitos pelo homem. É algo íntimo, que deve ser feito sincera e totalmente, independentemente de qualquer objeto físico.

Spielberg, Lucas, Kauffman e o roteirista Lawrence Kasdan poderiam ter evitado esses pequenos erros históricos simplesmente lendo melhor as Escrituras. Todavia, isso não chega a diminuir um dos filmes mais divertidos e eletrizantes de todo o século passado em seu objetivo (além da enorme bilheteria): um ótimo entretenimento.

Em todo caso, é sempre bom esclarecer alguma dúvida, pois é bem possível que algum incauto acabe acreditando nas informações de Indiana Jones e registre alguma informação histórica equivocada, ainda que pequena, como verdadeira.

 

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