Mundo Cristão

Ciência na Bíblia - Afinal, quem eram os filisteus?

Por meio dos relatos bíblicos e achados arqueológicos, cientistas descobriram mais sobre a origem e os costumes daquele intrigante povo do Antigo Testamento

Por Marcelo Cypriano / Fotos e ilustrações: Illustrated London News, Thinkstock, Rede Record
marcelo.cypriano@arcauniversal.com

Mesmo com mais dados encontrados nos séculos mais recentes, a origem dos filisteus ainda é objeto de controvérsias entre estudiosos. Largamente citados no Antigo Testamento, eles estiveram em passagens importantes da Bíblia, como as constantes guerras com os hebreus, entrelaçadas com as histórias de personagens como Abraão, Sansão e Davi, influenciando a cultura de Israel, mas desaparecendo com o tempo, por volta do século 7 antes de Cristo (a.C.). Informações mais precisas e relativamente recentes levam a crer que são oriundos da grega Creta.

As primeiras referências aos filisteus já aparecem e Gênesis, quando Abraão e seus descendentes ficaram um bom tempo em suas terras.  O enciclopedista francês Augustin Calmet (1672-1757), profundo conhecedor da Bíblia e da história Greco-romana, conduziu estudos que incluíram uma versão da Bíblia em grego do século 2 a.C., feita em Alexandria, Egito, que se referia ao misterioso povo como integrante da nação dos cretenses. Em documentos bizantinos do século 6, Gaza, um dos maiores centros filisteus, era chamada Minoa – em honra ao rei Minos, de Creta.

Calmet foi confirmado mais de um século depois. Quando da famosa expedição de Napoleão Bonaparte ao Egito, em 1798, foi levada para a Europa a famosa Pedra da Roseta (ilustração acima), que Jean-François Champollion usou para decifrar os hieróglifos. Ainda no Egito, ao sul do país, os expedicionários franceses acharam desenhos e hieróglifos na parede do templo de Medinet Habu que mostravam guerreiros com cocares de penas lutando contra egípcios. Em 1829, o próprio Champollion esteve no templo e, traduzindo as inscrições, concluiu que narravam a vitória de Ramsés III contra a invasão dos chamados Povos do Mar, provenientes do Egeu, dos quais grande parte eram os filisteus, próximo ao século 12 a.C.. A palavra “filisteu” figurava com destaque nas inscrições.

Em Canaã

Era comum que povos vencidos em guerra prestassem serviços aos vitoriosos. Como mercenários servindo a Ramsés III, os filisteus foram enviados a Canaã, proteção da área então de domínio egípcio, e acabaram por colonizá-la, levando suas famílias. Com o declínio do Egito, herdaram a região, posteriormente conhecida por alguns como Filístia.

Os combates com os vizinhos hebreus eram constantes. Em uma grande batalha contra os filisteus nos tempos de Davi (foto acima), Jônatas foi morto e Saul suicidou-se. Os inimigos dos hebreus também conquistaram o vale de Jezreel. Sansão tem sua história intimamente ligada à daquele povo. Feriu cerca de mil deles com uma queixada de jumento (Juízes 15:15-17). Casou-se com uma filisteia (foto abaixo, de "Sansão e Dalila", minissérie da Record) e sempre se envolvia com mulheres daquele povo, antes e após o casamento. Dalila, a serviço dos filisteus, seduziu-o e descobriu o segredo de sua notória força física, entregando-o aos inimigos. Foi num templo filisteu erigido ao deus Dagom que Sansão, entre duas colunas, derrubou-as e pôs o prédio abaixo.

O apogeu

As cidades dos filisteus evidenciavam o grande poderio econômico e militar daquele povo. Baseavam sua administração numa pentápole (área que compreende cinco cidades): Ascalão, Gaza, Asdode, Gate e Ecrom. O trabalho dos arqueólogos derrubou o estereótipo de que eram um povo bárbaro e incivilizado. Foram encontrados indícios de cidades bem organizadas, robustas, com eficientes muralhas e as áreas comerciais, industriais e residenciais separadas. A imponente arquitetura mostra influências egípcias e gregas.

Além disso, a construção local foi influenciada pelos Povos do Mar com o uso de grandes blocos esculpidos em pedra, no lugar do que antes era utilizado nas cercanias: irregulares rochas brutas e tijolos de argila. Também exibiam o domínio da arte da metalurgia, com grande destreza. Sua cerâmica era sofisticada, com utensílios ricos em relevos decorativos, ao invés dos vasos de barro cru antes feitos pelos israelitas, que aprimoraram a atividade da olaria com a influência indireta dos vizinhos.

Dominavam com maestria a construção naval, que inovaram com o uso de velas móveis e âncoras de pedra e madeira, além do cesto da gávea (suporte onde um vigia ficava no alto de um mastro para melhor visualização do mar em volta).

Eram famosos pelos ótimos vinhos e pelo azeite de oliva de incontestável qualidade, com amplas instalações para os lagares e estoques. Falando em alimento, comiam carne de porco, algo impensável pelos hebreus, que viam o animal como impuro.

No tocante à religião, eram basicamente politeístas, venerando falsos deuses como Dagom, Astarote e Baal (com a variação de nome Baal-Zebub, que originou Belzebu, nome atribuído a um demônio em várias culturas). Quando venceram os hebreus e capturaram a Arca da Aliança (ilustração acima, à esquerda), levaram-na e a depositaram em um templo de Dagom em Asdode, cuja estátua caiu por duas vezes, além de doenças infestarem o povo. Os filisteus devolveram a Arca e nunca mais a quiseram como troféu (1 Samuel 5).

Os filisteus não praticavam a circuncisão, ato que distinguia os hebreus, por isso chamados constante e pejorativamente por esses de “incircuncisos”. Em outra passagem bíblica, em 1 Samuel 18, Saul, com ciúmes da popularidade de Davi, pede ao pastor guerreiro que, como dote para se casar com sua filha Mical, lhe traga 100 prepúcios dos filisteus, armando para que, em uma missão perigosa como aquela, o jovem morresse. Davi não só leva o que lhe foi pedido (foto abaixo) como recebe Mical como esposa, a contragosto do monarca.

Golias, o início da queda

Desde a época em que a Arca da Aliança foi levada pelos descendentes dos Povos do Mar para Asdode, os hebreus eram obrigados a engolir constantes derrotas para eles. As bravatas para humilhar Israel eram constantes. Um dos mais famosos filisteus foi o guerreiro Golias, temido não só por sua destreza, mas também por suas proporções físicas que lhe valiam a alcunha de gigante. Todos os dias, no campo de batalha do Vale do Elá, ele esbravejava contra os judeus, desafiando-os. Até que um dia um pequeno pastor de ovelhas, filho de Jessé, foi levar comida para seus irmãos no front, e o resto da história todos já conhecem bem – em todo caso, vale uma olhadinha no vídeo abaixo:

Com a derrota de Golias, começou o declínio dos antes poderosos filisteus no território de Canaã. Algumas vitórias os fortaleciam de vez em quando, como a do confronto que levou Jônatas e Saul. Davi tornou-se rei e nunca foi condescendente com aqueles inimigos. Judá e Israel foram unidos, e a nova grande potência aniquilou os filisteus em sua antiga importância.

O cativeiro na Babilônia

Mesmo com a virada no jogo do poder, os filisteus voltaram a ter poder e prestígio. Só que, por volta de 812 a.C., eles e seus históricos inimigos hebreus tiveram um destino, ironicamente, compartilhado. A Babilônia venceu Israel e destruiu Jerusalém. O rei babilônico Nabucodonosor dedicou-se, após, a destruir os filisteus, pois não aceitava quem o confrontasse em seu poder. Destruiu suas cidades e tornou os sobreviventes prisioneiros. Até hoje, escavações arqueológicas testemunham o cenário de devastação que causou o fim daquelas antes imponentes povoações, como Ascalão e Ecrom, só para citar algumas. Nabucodonosor escravizou ambos os povos e os levou para a Babilônia, onde serviram com trabalhos forçados por muitos anos.

Quando o Império Babilônico caiu pelas mãos dos persas, os escravos libertos voltaram para suas terras, repovoando-as, como aconteceu aos israelitas. Exceto os filisteus, aos poucos assimilados pela cultura babilônica durante o cativeiro. Suas antigas cidades foram ocupadas por outros povos.

Amplamente presentes no Antigo Testamento, um dos povos mais poderosos dos tempos bíblicos teve sua participação na História completamente encerrada, não restando nada além dos relatos bíblicos e dos achados arqueológicos que mostram, acima de tudo, destruição. Assim como acontecia antes com sua origem, o modo exato como ocorreu seu fim em solo babilônico é um grande mistério.

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