Mundo Cristão
publicado em 08/04/2012 às 04h50.
Costumes da Bíblia - Dias mais do que úteis
O cotidiano das famílias bíblicas era repleto de trabalho e dedicação aos entes queridos

Rotina. Essa palavra causa arrepios em alguns e indiferença em outros, mas é nela que a vida acontece, dia após dia. Bem executada, é o lastro da qualidade de vida. Se hoje, acordados ou dormindo, somos escravos do relógio e cada vez temos menos tempo para Deus, para nós e para nossos entes queridos, vale pensar em buscar um equilíbrio.
Nos tempos bíblicos, a sabedoria daqueles que viviam sob os preceitos do Senhor permitia que 24 horas rendessem bem mais do que conseguimos fazer hoje, embora sempre nos gabemos de ter muito mais recursos em todos os sentidos.
Será que temos mesmo?
Hora de comprovar.
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No Antigo e no Novo Testamentos, a todo momento a Bíblia mostra fragmentos da vida do povo de Deus, repleta de costumes que ficaram ainda mais evidentes e com maior controle quando o homem deixou a vida nômade para aderir às moradias fixas. Casas e palácios foram construídos, surgiram cidades, grandes ou pequenas, mas cada uma funcionando tal e qual um organismo vivo, com as pessoas fazendo as vezes do sangue que corre em veias e artérias e faz a vida acontecer. E, como a vida criada por Deus em sua perfeição, a precisão era necessária ao bom funcionamento. Famílias mais abastadas utilizavam escravos para os trabalhos diários de uma residência, mas essas eram minoria. Algumas atividades da vida itinerante mudaram pouco em relação à fixa, só que com mais comodidade. A partir daqueles costumes diários, pode ficar até mais fácil entender certas passagens da Palavra Sagrada.
O dia começa
Era bem comum que quase todo mundo, nos tempos bíblicos, acordasse bem cedo. Alguns já com os primeiros raios do sol – e, não poucos, até antes deles. Não havia a fartura de luz que temos hoje com nossos recursos energéticos, e a claridade natural tinha que ser aproveitada o máximo possível. Ainda morando em terras dos filisteus, Abraão levantou na aurora para oferecer Isaque em sacrifício (Gênesis 22.3). Moisés subiu bem cedinho ao Sinai para receber de Deus os mandamentos (Êxodo 34.4). Jó, antes de sua enorme provação, levantava-se de madrugada e oferecia ao Senhor holocaustos a fim de pedir perdão pelos pecados de seus filhos (Jó 1.5). O próprio Jesus orou antes do sol nascer, como mostra Marcos 1.35.
A maioria das casas era pequena, sem desperdício do parco espaço. Raras eram as habitações com quartos separados para seus moradores – era bem comum que famílias inteiras dormissem até mesmo juntas no mesmo aposento. Era difícil alguém dormir até mais tarde, a não ser em caso de doença, pois todo mundo costumava se levantar bem cedo, iniciando o movimento e o barulho na morada – “Como a porta se revolve nos seus gonzos, assim, o preguiçoso, no seu leito.” Provérbios 26.14

O café da manhã era importante, mas bem informal. Geralmente um sanduíche, um pedaço de pão com qualquer recheio (azeitonas em conserva, frutas secas, queijos), que os homens comiam até mesmo a caminho do trabalho (como nós hoje fazemos em nossas grandes cidades, copinhos de papel na mão, “para viagem”). Mães, esposas e filhas começavam os trabalhos domésticos, tomando conta das crianças ainda novas para a escola e o trabalho. O filho mais novo cuidava dos animais da família, em casa ou nos pastos (tal como Davi, na foto ao lado, na minissérie da Record que conta sua história) e os outros ajudavam de várias formas. Alguns levavam a marmita para os pais e irmãos mais velhos no trabalho, ou mesmo nos campos de batalha (aqui Davi também é lembrado, quando levava o almoço dos irmãos ao Vale do Elá, quando acabou enfrentando Golias).
Homens já fora, as mulheres pegavam um moinho de pedra manual de pequeno porte, próprio para dentro de casa, e começavam a moer os cereais para diferentes farinhas.

Serviços externos, como ir ao mercado e providenciar água, eram tarefa das meninas mais velhas. As compras no mercado local eram feitas quase diariamente, pois, afora as conservas e salgas, alguns alimentos eram adquiridos frescos, em uma época sem geladeiras. A água era colhida na fonte ou poço mais próximo em grandes jarros de cerâmica, sempre ao início ou ao fim do dia. A passagem em que Eliezer, servo de Abraão, foi orientado por Deus para encontrar uma pretendente para Isaque (Gênesis 24.7-14), mostra bem isso. Ele sabia que, à tarde, as moças mais velhas da família, portanto as já em idade para o casamento, estariam no poço. Assim, encontrou Rebeca (ilustração acima).
Sob o teto
O serviço interno da casa não diferia muito do de hoje. Os cômodos eram cuidadosamente varridos e os objetos postos em seus devidos lugares – por isso, a metáfora usada em Lucas 11.24-25. O fogo, aos poucos, era atiçado com lenha ou carvão, para que já se começasse a fazer o almoço. O pão era a base de tudo – o “arroz com feijão” dos tempos bíblicos, recebendo os acréscimos. Quem estivesse em casa almoçava, normalmente à volta da mesa (geralmente tablados bem perto do chão), e a comida era levada ao trabalho dos homens, se fosse longe de casa. Pastores que fossem para mais longe ainda já saíam com alimento em seus alforjes. Hoje, usada como guloseima, a pipoca era parte de refeições, feita tostando-se em tachos o milho, ou mesmo alguns tipos de arroz e de trigo (1 Samuel 17.17) – a pipoca de arroz voltou, em pleno século 21, a ser moda em badalados restaurantes.
Após o almoço, a sesta era comum, como em algumas culturas de hoje. Como almoçava-se cedo, o cochilo pós-refeição servia para abrigar-se do sol mais forte próximo ao meio-dia, quando era difícil trabalhar a céu aberto – vela lembrar que a maioria dos personagens bíblicos morava em regiões de clima árido ou semiárido, de temperaturas bem altas. Abraão preparava-se para a sesta na frente de sua tenda (Gênesis 18.1) quando três anjos anunciaram que dali a 1 ano ele e Sara teriam um filho. Is-Bosete foi morto próximo ao meio-dia, quando dormia em casa (2 samuel 4. 5-6). Mesmo em viagens ou guerras, o costume era mantido, se possível, nos acampamentos e cavernas, ou mesmo sob sombras de árvores. Como todos acordavam bem cedo, aliando isso ao cansaço por causa das atividades da manhã, o sono vinha fácil.
À tarde, após a sesta, várias atividades. Em Provérbios, quando é descrita a mulher virtuosa, são citadas a tecelagem e a costura. As mulheres tanto faziam tecidos e roupas para uso da família, quanto vendiam o excedente, ajudando no orçamento da casa. Era comum que várias vizinhas se reunissem na casa de uma delas e, durante a confecção, colocavam a conversa em dia e cuidavam dos filhos menores.
Asseio
O banho era geralmente tomado na parte da tarde. Lares mais abastados tinham seus quartos de banho, cômodos somente para este fim, devidamente fechados. Outras edificações também tinham pequenas piscinas na laje, ou tinas de madeira ou barro no mesmo pavimento, ou ainda em quintais cercados – o que explica Davi, do alto de seu palácio e ao fim de sua sesta, ter visto a belíssima Bate-Seba banhando-se (2 Samuel 11.2). Os banhos em rios e lagos também eram bem comuns, como mostra a passagem da filha do Faraó lavando-se no Nilo quando achou o bebê Moisés (Êxodo 2.5).

Tempo para Deus
Em meio a todas essas atividades, eram separados os horários para Deus. No Antigo Testamento, o Tabernáculo, o Templo ou mesmo as conversas com os profetas tinham suas horas específicas, devidamente obedecidas. No Novo Testamento, com tudo mudado após Jesus, as orações também estavam presentes ao longo da jornada diária, nos templos ou em casa, já que o Messias reconectou Deus ao homem diretamente, sem intermediários.
Várias dessas atividades descritas não eram realizadas no sétimo dia de descanso de toda semana, ordenado por Deus.
Rumo ao poente
No período vespertino já se começava a pensar no que fazer para o jantar, a fim de que os homens chegassem e encontrassem a refeição pronta. Já com todos em casa, a mesa era novamente posta, com mais detalhes que no almoço. Geralmente eram feitos vegetais e cozidos de grãos (como lentilhas), como o que Jacó fez e trocou pela primogenitura de Esaú, que chegava cansado e faminto de longa caçada (Gênesis 25. 29-34). Em ocasiões especiais, a carne assada ou cozida se fazia presente, segundo as regras descritas em Levítico, mantidas até hoje pelo povo judeu. Novamente, o pão era essencial, às vezes servindo até de “talher” para pegar um pouco do cozido, molhando-o. A sobremesa já existia: terminavam-se as refeições com frutas secas ou frescas, de acordo com sua época.
Terminada a refeição no início da noite, a família já se retirava para dormir. Nas casas e palácios com quartos, cada um seguia para seus aposentos. Nos lares mais simples, a mesa era retirada e o cômodo principal virava um grande dormitório, com acolchoados e esteiras, e a família dormia, para acordar aos primeiros raios da alvorada seguinte e começar um novo dia.
