Mundo Cristão

Costumes da Bíblia - O comércio

Da autosuficiência à troca em larga escala, a atividade teve papel muito importante na formação geral das sociedades bíblicas

Por Marcelo Cypriano / Imagens: Wikimedia, Thinkstock
marcelo.cypriano@arcauniversal.com

No período pré-monárquico de Israel, a base da economia era a subsistência, com os pequenos produtores provendo suas famílias e negociando o excedente por meio do escambo (troca de mercadorias, como na ilustração acima). Convencionava-se, por exemplo, certo peso de grãos de trigo que valiam um cabrito. Com o tempo, antes da adoção do dinheiro, outros objetos serviam como moeda, a exemplo das pedras e metais preciosos.

Após o surgimento da monarquia, a vida nômade foi substituída gradativamente pela moradia fixa. Surgiram as vilas e cidades. Os agricultores ainda existiam no campo, ou mesmo próximos às cidades, assim como os donos de rebanhos. Porém, atividades eminentemente urbanas passaram a ser mais percebidas, e não mais para produzir bens de consumo próprio. A escala de produção era um pouco maior, e quem antes fazia para si passou a ser fornecedor para o mercado local ou de outras paragens, próximas ou distantes. Prosperaram as atividades como olaria (basicamente, a produção de tijolos e telhas), cerâmica (potes, lâmpadas e vasos), beneficiamento de pedras para construção (como blocos e revestimentos), panificação, tinturaria, carpintaria, marcenaria, pequena metalurgia e outros, que alimentavam o comércio urbano, assim como os serviços, geralmente concentrados nos mercados, os centros nervosos de pequenas e grandes comunidades, ou feiras de nômades fora dos limites das cidades, mas não distantes.

A maior parte das transações comerciais era urbana, ou de curta distância, entre cidades grandes e pequenas da mesma região. Nos mercados permanentes ou feiras semanais eram encontrados produtos como hortifrutigranjeiros de pequenos produtores das redondezas, como grãos, frutas, mel, legumes, vinho, azeites, laticínios, peixes, carnes e mesmo animais vivos. A produção fabril em pequena escala levou aos mercados as ferramentas, cestarias, tecidos, armas, cerâmicas, tendas, móveis e outros utensílios tão necessários ao cotidiano.

Ainda era bastante praticado o escambo. Um criador de ovelhas trocava um de seus animais pelo trigo de que sua família precisava, ferramentas para o manejo do solo ou tecidos, de acordo com o valor estipulado entre os itens. Um pescador trocava seus peixes por outras mercadorias de que precisasse. O uso de minerais preciosos substituiu a troca direta aos poucos, pois dava mais liberdade de troca, além de ser bem mais prática. O peso ainda era bastante usado como valor principal. Achados arqueológicos datados do século 8 em diante, como pesos de pedra usados nas balanças rústicas, com as indicações talhadas na parte superior, não são raros.

Transporte de cargas

Os caminhos entre as cidades variavam entre percursos livres em pleno deserto, largas estradas e simples trilhas seguindo o relevo local. O transporte interurbano de mercadorias era feito basicamente em lombo de burro, animal que vencia sem grandes dificuldades terrenos acidentados e aguentava um peso considerável, mesmo que a velocidade não fosse alta. Com o advento da monarquia e dos impostos (embutidos nos preços das próprias mercadorias), as estradas foram melhoradas, e cresceu o uso de carroças e carros de boi, o que possibilitava cargas maiores por viagem.

O transporte terrestre de mercadorias por meio da tração animal também possibilitava o comércio de longa distância, entre reinos, que já tinham seus tratados comerciais internacionais. A rota Via Maris (“caminho do mar”, em latim) era bastante conhecida, que ligava o Egito à Mesopotâmia passando pela costa a leste do Mediterrâneo e a Síria. A estrada principal tinha diversas ramificações que garantiam o acesso às regiões próximas. Outro caminho importante dos tempos bíblicos era a Rota dos Reis, na Transjordânia, no eixo norte-sul do mapa.

As maiores cidades ao longo das estradas serviam como entrepostos, onde havia tanto o armazenamento de mercadorias quanto pousadas para os mercadores viajantes, como Ascalão, Megido, Gezer, Hazor e . Parte das mercadorias transportadas pelas grandes caravanas também podia ser comercializada nos grandes mercados dessas cidades, para subsistência das próprias viagens. Há sinais bem evidentes desses mercados abertos como os de Dã e até mesmo de lojas em Ascalão em achados arqueológicos recentes. As grandes caravanas de camelos eram de suma importância para a época. O contato entre culturas diferentes enriqueceu em muito os costumes desses entrepostos comerciais, evidentes na alimentação, no vestuário e até na arquitetura, assim como nas próprias línguas, que passaram a “emprestar” palavras e expressões umas às outras.

Deste modo, o comércio tinha (e ainda tem) um papel muito mais importante para a sociedade do que somente o de troca de mercadorias.

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