Comportamento

Lixo na rua e na cabeça

Mais de um terço das cidades brasileiras sofrem com enchentes por causa dos resíduos urbanos descartados de forma errada

Por Marcelo Cypriano

 

A limpeza de uma cidade mostra a educação das pessoas que moram nela. No caso de algumas, a falta de educação. É claro que os cidadãos mais educados e bem informados não merecem a crítica, mas também acabam sofrendo as consequências dos atos daqueles que não cuidam do lugar onde moram.

É ponto pacífico: é inconcebível por um ser civilizado jogar lixo no chão, de um simples papelzinho a até mesmo móveis velhos e entulhos de construção. Mas morar na civilização não quer dizer que o sujeito seja, de fato, civilizado. Um grande defeito das pessoas que fazem este tipo de vandalismo é o de acharem que sua casa é somente da porta para dentro, só o limite de seus imóveis. Eles não entendem que também moram nas ruas que usam todos os dias e estão sujeitos a tudo o que acontece nelas – ainda que as vejam somente através dos vidros de seus bem equipados automóveis e nem mesmo pisem nelas. Quem nunca presenciou alguém sem a menor noção de cidadania jogando alguma coisa pela janela do carro ou do ônibus?

Quando falamos em educação, não falamos somente em nível de instrução. Mas também naquela boa e velha educação com o sentido de respeito pelas pessoas e pelo lugar em que vivem, que é, afinal de contas, uma extensão delas mesmas e de seus lares. Algumas das cidades mais ricas do Brasil, com grande número de pessoas instruídas, são também as mais imundas. Mas, que se saiba, as cidades não se sujam sozinhas. Alguém o faz.

E quando chove? Aquela pontinha de cigarro jogada no meio-fio, o papelzinho de bala lançado no canto da calçada, o nojento chiclete mastigado cuspido no chão e até mesmo objetos e pacotes de maior tamanho causam aquele estrago quando a água os leva para os bueiros e galerias: as enchentes. E lá vem a desculpa predileta de sempre: “A prefeitura não cuida.” Infelizmente, muita gente tem mania de achar que a limpeza de uma cidade é única e exclusivamente papel dos órgãos públicos – e como limpeza, aqui, não nos referimos somente a varrer ou lavar, mas simplesmente a não sujar, o que já é muita coisa. O poder público tem, logicamente, que cuidar da devida coleta dos resíduos urbanos. Mas grande parte da responsabilidade diz respeito a cada um de nós, que devemos descartar corretamente o lixo. Mesmo o mais simples – nunca ninguém sofreu por guardar um papelzinho no bolso ou segurar seu copinho descartável até chegar a uma lixeira.

Enchentes

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou uma pesquisa mostrando que o lixo urbano jogado em ruas, avenidas, lagos, rios e córregos é a principal causa de enchentes em mais de 600 municípios brasileiros. O Sudeste, teoricamente a região mais desenvolvida, é o campeão da sujeira urbana: 39,6% de suas cidades sofreram inundações por entupimento das galerias de águas pluviais (da chuva) por causa de lixo. O Norte sempre é lembrado por sua natureza exuberante no estereótipo usual, mas 32,7% de seus municípios ficam debaixo d’água por causa do lixo. No Nordeste, 30,3%; no Centro-Oeste, 29,8% e o Sul tem 26,4% – neste último caso, parece pouco, mas quase 30% está longe de ser um índice que possa ser comemorado. Cidades sulistas como Curitiba e Florianópolis sempre são apontadas como exemplos na coleta e na reciclagem do lixo, bem como o da educação de seus cidadãos no que concerne à limpeza das ruas. Outras capitais sempre viram estes exemplos, mas não o seguiram.

Claro que outros motivos contribuem para as enchentes, mas esses índices dizem respeito somente ao lixo descartado de forma errada. Muita gente infla o peito para dizer que ama sua cidade, até brigando para defendê-la. Mas amar ainda tem, entre os seus significados, o de cuidar. Amor da boca para fora nunca foi amor de verdade.

Parece incrível, mas ainda há pessoas que pensam que um simples papelzinho ou ponta de cigarro descartados no chão não fazem diferença. Mas quantos desses pequenos objetos são lançados por alguém nas calçadas e pistas todos os dias? Quando chove, todo mundo vê a diferença que faz – inclusive quem não é capaz de sujar sua cidade.

“Mais uma vez fica evidente que as ações individuais sobre o meio ambiente causam danos coletivos”, diz Heloisa Mello, gerente de operações do Instituto Akatu, organização sem fins lucrativos que promove o consumo consciente e a qualidade de vida proveniente dele. Continuando sobre a pesquisa do IBGE, Heloisa considera: “Esses dados mostram que uma mudança de comportamento dos consumidores é necessária no sentido de descartarem corretamente seus resíduos e, desse modo, diminuírem os impactos negativos de seu consumo sobre o meio ambiente, a sociedade e a economia”.

É interessante Heloisa falar em economia, pois a pesquisa também divulgou que o Governo Federal reservou, no ano passado, R$ 647 milhões para obras de combate às enchentes, entre elas a retirada do lixo das galerias de drenagem, rios e córregos. Dinheiro que poderia ser gasto de uma forma melhor, como saúde, segurança e educação. Essa última seria muito útil quando alguém pensar, novamente, em jogar seu lixo no chão.

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