Comportamento
publicado em 25/05/2010 às 17h01.
Terceiro Lugar: seu cantinho fora de casa
Depois do lar e do trabalho, todo mundo está achando um lugar para o convívio social, tanto para o lazer quanto para atividades profissionais e estudo
Urbanoides de vários cantos do mundo, principalmente os adeptos da arte de morar sozinho, já entenderam bem o significado do que é chamado de third place (terceiro lugar, em inglês) no dia a dia. O termo, diga-se de passagem, é bastante apropriado: é o terceiro lugar de permanência ou de convívio social, após o lar e o trabalho.
Talvez nada se encaixe tanto da definição de third place quanto os cafés e bistrôs, tais como os conhecemos hoje, após as adaptações pedidas pela vida moderna – sem falar que há alguns séculos os cafés são os laboratórios de ideias revolucionárias em todos os âmbitos. Por isso mesmo, hoje alguns proprietários ousam e incrementam suas cafeterias, bistrôs e restaurantes, fazendo deles aquele cantinho em que você encontra os amigos depois de um dia árduo na labuta, senta em uma gostosa poltrona com o laptop para tentar adiantar a tese de mestrado ou doutorado, marca algo com aquela pessoa especial, vê contatos profissionais para uma reunião que pelo menos pareça mais informal ou simplesmente esquece isso tudo e, confortável, pura e simplesmente espairece.
Lembrou-se do café Central Perk (foto acima) do seriado Friends não é?
Há aqueles espaços descaradamente comerciais mesmo – mas que nem por isso deixam de ser agradáveis – como a rede Starbucks, que deu um salto em seu crescimento após apostar na ideia de third place, ao invés de simplesmente um lugar para se comprar pó de café para levar para casa. Ao que parece, pelo menos até agora, a febre chegou ao Brasil para ficar. O paulistano, por exemplo, comprou bem a ideia e já tem à disposição mais de vinte lojas da rede pela metrópole afora. Os cariocas também têm a sua. O próprio Howard Schultz, presidente da empresa, deve estar contente por ter cedido aos apelos da família Rodenbeck, proprietária de uma rede de restaurantes de inspiração australiana no Brasil, para trazer o famoso café norte-americano. O brasileiro também foi conquistado pelo canto da sereia de duas caudas. Onde mais você pode se sentar por horas a fio, a trabalho ou descanso, sorvendo uma bebida saborosa, beliscando salgados e doces muito bons (infelizmente caros), sem ser incomodado pelos “partners” (é como eles chamam seus atendentes), habilmente treinados para o bom atendimento? A rede, em breve, comunicará novas lojas em outras regiões do País. Outros cafés “brazucas” estão apostando nesse filão de terceiro lugar.
Para os paulistanos
Espaços não tão comerciais assim, que apostam em uma proposta mais aconchegante, menos padrão – com mais personalidade – também exercem seu encanto entre os habitantes da urbe. É o caso de cantinhos como o Rarebit, na tradiconal rua Melo Alves, em que os clientes costumam virar amigos entre si e do pessoal da casa. Um misto de galeria de arte, ateliê de restauração, café e bistrô com cardápio incrível já ganhou adeptos não somente dos Jardins, mas também de outros cantos da cidade e de mais longe: não raro, estrangeiros em visita a São Paulo se rendem aos doces de Wilma e à recepção sempre amiga de Carlos, seu marido, e de Monica, filha do casal, também especialista em espressos e seus derivados. Ali perto, na Alameda Lorena, o Suplicy Cafés Especiais já virou mania, com seus balcões na vitrine e as confortáveis poltronas na parte dos fundos. Não somente o cliente pode almoçar, jantar ou lanchar, como pode comprar ótimos blends para levar para casa. Também em outros endereços em shoppings paulistanos e na capital gaúcha, Porto Alegre.

Atravessando a Avenida Rebouças, no Jardim Paulista, numa esquina bem movimentada (porém tranquila) fica uma novidade: o Felícia Ca-phé. A pequena cafeteria que une o moderno e o tradicional na decoração oferece bom café e ótimos doces, salgados e sanduíches, com a simpatia de sua proprietária Cláudia Chaves, ex-comissária de bordo, que reconfigurou a fachada de seu sobrado para o novo negócio. Rafael, seu irmão, encarou com Cláudia a mudança de ares e não raro convida o cliente a provar novos blends. O pequeno balcão na frente convida à leitura e à contemplação, mas cada detalhe da casa reserva surpresas. Um novo cantinho da cidade pequeno no tamanho, mas grande no clima agradável e na interação com a vizinhança.
Em Pinheiros fica o Coffee Lab, iniciativa de uma das mais renomadas baristas do País, Isabela Raposeiras. Muito mais que somente uma cafeteria, o lugar oferece cursos a profissionais e apreciadores de café e seus múltiplos derivados. Lá você pode provar o diferente chá de película de café, com sabor aproximado ao do mate, com um toque de especiarias à sua escolha. O sobradinho mantém o clima de residência e o atendimento faz querer voltar sempre, para provar ali mesmo as bebidas de Isabela ou para levar para casa (ou dar de presente) blends entre os melhores do País. Não longe dali, no mesmo bairro, fica a Brigadeiro Doceria & Café, um lugar de encher os olhos com inúmeras opções também em salgados. Outro sobrado com jeitão de “casa da vovó”, entre os acepipes há diversos cantinhos com muitos mascotes: coelhos, pássaros, tartarugas, peixes, etc. Adultos e crianças se divertem com os bichos, entre muita coisa gostosa.
Subindo de Pinheiros para a Vila Madalena, tradicionalíssimo bairro boêmio e cultural, há uma iniciativa mais do que bem-vinda: o Ekoa Café, que é bem mais do que sugere o nome. O Ekoa, na definição de seus proprietários Marisa e Henrique, é um “espaço para relacionamento”. E é mesmo. O velho casarão da Vila, todo reformado observando princípios ecológicos, serve um cardápio natural generosíssimo (com um bufê de café da manhã espetacular aos sábados), promove encontros de gente das mais variadas atividades para discutir qualidade de vida nesses tempos urbanos atribulados (como o Green Drinks), oferece espaços os mais diferentes para outros eventos e encontros, ou mesmo para quem quer ficar sozinho estudando ou relaxando. Onde mais você pode contemplar o dia lá fora deitado em uma rede na varanda, alheio ao movimento urbano à sua volta? Em tempo: Ekoa em tupi-guarani significa morada, lugar que aconchega. Apropriadíssimo.
Cariocas também têm vez
A histórica e mais que conhecida Confeitaria Colombo, fundada em 1894, já foi o terceiro lugar das maiores cabeças pensantes do País ao longo de mais de um século de existência. Gente como Olavo Bilac, Heitor Villa-Lobos, Chiquinha Gonzaga, Ruy Barbosa, Lima Barreto, José do Patrocínio, Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek batia ponto ali quase todos os dias. Patrimônio histórico do Rio, sua decoração em art nouveau é competentemente preservada e seus produtos são famosos em várias paragens. No mesmo imóvel, outros third places: o Bar jardim e o restaurante Cristóvão (e sua famosa feijoada de quartas e sábados). Uma espécie de filial da Colombo, o Café do Forte, fica em um inusitado e apreciadíssimo endereço: no Forte de Copacabana, com opções entre quatro paredes e ao ar livre, com uma paisagem de tirar o fôlego.
Outra opção carioca que agrada muito é o Celeiro, no Leblon, restaurante muito querido por
famosos e anônimos em que o cliente se sente acolhido, além de provar receitas da família proprietária do local que ganha a cada dia mais adeptos. Com jeitão de sala de estar, não somente o cardápio com ingredientes naturais é riquíssimo como também é grande a variedade de frequentadores nas mesas do salão e da calçada. Ao mesmo tempo, você poderá almoçar ou lanchar entre gente vestida de todas as maneiras: “trajes de praia, ternos Armani, roupas de malhação ou vestidos de grife”, como relatou um dos conhecidos frequentadores do lugar, o músico e escritor Tony Bellotto. O que começou numa barraca de lanches naturais na Praia do Pepê, na Barra da Tijuca, hoje é um terceiro lugar bastante apreciado na zona sul.
Os cafés que ficam nas famosas livrarias da capital fluminense são disputadíssimos, como no caso da Livraria da Travessa, em endereços como a tradicional Rua do Ouvidor, no Centro, e em Ipanema, dentre outras filiais. Dia e noite, boa leitura é apreciada por jovens e veteranos, muitos deles famosos, entre cheirosas sorvidas de cafés e outros drinques derivados da rubiácea.
Tem para todo mundo
Cada vez mais comum, o fenômeno do terceiro lugar parece que veio para ficar. O nome pode parecer novo, mas é um conceito antigo, que só está mais em evidência. As famílias diminuem, as cidades crescem, o convívio pessoal (ao contrário do virtual) é cada vez mais raro, fazendo necessários esses pontos de contato diário para que o indivíduo se sinta parte da sociedade mesmo fora do trabalho e de casa.
O mais legal é que ninguém vai forçado: cada um pode achar o seu tipo de terceiro lugar. Pode ser a padaria da esquina, um dos bonitos cafés como os citados nesta matéria, um salão de bilhar ou de boliche, o popular barzinho, um quiosque num parque ou à beira-mar, o saguão do cinema multiplex local, a pracinha do seu bairro. O negócio é descobrir onde você se sente bem, mesmo fora de casa, sozinho ou bem acompanhado.
Claro que citamos somente alguns exemplos neste texto. Há muitos outros espaços que merecem uma visita, em muitas outras cidades. E o seu cantinho predileto? Qual é? Conte-nos!
Comece a visita! Veja aqui uma galeria de fotos dos lugares citados acima
Endereços e contatos:
Starbucks – Mais de 20 endereços em São Paulo e no Rio de Janeiro (www.starbucks.com.br).
São Paulo:
Rarebit Galeria e Bistrô – R. Melo Alves, 360 - (11) 3586-2045.
Suplicy Cafés Especiais – Al. Lorena, 1.430 - (11) 3061-0195.
Coffee Lab – Rua Cônego Eugênio Leite, 1.121 - (11) 3375-7400.
Brigadeiro Doceria & Café – R. Padre Carvalho, 91 - (11) 3813-6656.
Ekoa Café – R. Fradique Coutinho, 914 - (11) 3032-7842.
Rio de Janeiro:
Confeitaria Colombo – R. Gonçalves Dias, 32/36 - (21) 2505-1500.
Restaurante Celeiro – R. Dias Ferreira, 199 - (21) 2274-7843.
Livraria da Travessa – 7 endereços na capital fluminense (www.travessa.com.br).
