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publicado em 06/10/2012 às 04h50.
A primavera de cada um
Coisas boas teimam em acontecer, mesmo em meio à correria do cotidiano

A moça da cidade grande acordou cedíssimo, mas, numa boa. Levantou-se, foi tomar um banho e resolveu não lavar os longos cabelos com todos os cuidados de sempre, que consumiam muito tempo.
Tomou seu banho devagar, calmamente, ao som de uma música leve que vinha do rádio do quarto. Como sempre, já começava a esquematizar o dia de trabalho ainda no box. Mas tudo parecia diferente, não conseguiu se concentrar como de costume no planejamento, naquela agenda interna da cabeça, que alguns têm a sorte de saber usar.
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O dia lá fora estava cinza. Tempo totalmente fechado. Mas um dia agradável. Pôs uma roupa menos formal que a de costume e foi caminhar pelo bairro, em direção ao escritório. Não estava frio. Dava para aguentar com uma simples blusa, sem a necessidade de um casaco.
Na saída de seu prédio, viu um grande sabiá sair de uma moita de azaleias. As cores vibrantes das flores chamaram sua atenção, mas o estalo do portão automático se abrindo interromperam a distraída apreciação.
A cafeteria de costume ainda estava fechada. Entrou na cantina de um curso de inglês ao lado. Gostava da escola, um clima bacana, descontraído, porém sério. Pediu um expresso, que saboreou em pé mesmo, apreciando o jardim em frente e as árvores da rua. Cafezinho ruim, mas a manhã estava tão gostosa que ela “nem estava aí” para o café.
Andou em direção a um arranjo com vasos de violetas. A meio caminho, a garota do caixa a interrompeu. “Seu troco, moça”. Agradeceu, pegou as moedas e jogou distraidamente na bolsa.
O tempo ensaiava uma chuva, mas veio, repentinamente, uma aragem morna, nada que incomodasse. Ela, ainda distraída, tentando “pegar no tranco" para começar o dia como de costume, mas não sabia o motivo. Bebeu mais um pouco do lamentável café, olhou as flores do jardim. Não entendia por que, volta e meia, seus olhos se voltavam para aquelas flores, insistentemente.
Reparou mais nas pessoas que passavam na calçada, nas mães que levavam as crianças para a aula de inglês...
Saiu, ainda com o copinho de isopor na mão. Andou por toda a quadra.
Ao virar a esquina, um baque.
Na grande praça, um enorme ipê roxo não se continha de tantas flores. E boa parte delas forrava o chão da praça quase todo, num tapete lilás que contrastava com a cerâmica avermelhada do piso e a grama verde.
E ali, com um café ruim na mão, parada na esquina, ela entendeu tudo.
Por causa da correria do dia a dia, ela ainda não havia reparado.
A primavera havia chegado, e dava pistas desde que a jovem saiu de casa.
