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A vida tem que continuar

Em algumas situações, há algo depois do aparente fim

Por Marcelo Cypriano / Foto: Thinkstock
marcelo.cypriano@arcauniversal.com

Ela quis terminar por telefone, embora já soubesse não ser a melhor forma. Arrependeu-se, pois ficou aquele clima de algo mal resolvido. Ele tentou levar o primeiro dia numa boa, mas estava com a mesma sensação. Tomou a iniciativa de quebrar o silêncio (ela não esperava tal atitude) e de marcar um encontro pessoalmente, como deve ser. Encontraram-se.

Conversaram numa boa. Ela ficava incomodada em como ele lia as mensagens que seu corpo mandava, inconscientemente. Mas correu tudo bem. Tanto, que não faltou carinho em nenhum momento. Ainda tinham muito carinho e respeito um pelo outro.

Ao abraçá-lo, ela não aguentou e chorou em seu ombro. Ele se segurou, embora também tivesse vontade. Tinha de dar força, embora a moça não se importasse se ele chorasse. Ele forçou a saída. Finalmente se foi, com ela fechando a porta.

O rapaz não quis andar por aquele bairro, que lembrava tanto ela. Foi para o seu, um refúgio que conhecia bem. Começou a andar pelas ruas já escuras, algumas lojas ainda abertas, embora o movimento estivesse no fim. Entrou num sebo e vasculhou alguns livros, cujo cheiro antigo espantou um pouco o perfume dela que ficara em sua roupa. Caminhou bastante na noite bonita e um pouco fria, até entrar meio sem querer na cantina de que tanto gostava. Ao contrário do que pensava, percebeu que estava com muita fome, e a comida italiana caiu muito bem. Comeu bastante. A última vez que estivera ali foi com ela, pouco tempo antes.

Foi caminhando para casa. Tomou um banho bem quente e demorado e sentou-se para ver tevê, um humorístico. Chegou a rir, ainda que pouco. Precisava.

Foi para a cama quando estava com bastante sono. Orou, pedindo orientação e certo de ser atendido. Cobriu-se e dormiu.

Passaram-se alguns meses. Algo meio triste no ar se dissipava aos poucos. Bem aos poucos. Numa outra noite, caminhando perto de casa, sentou-se no banco de uma praça, vendo a cidade se recolher à sua volta, bem devagar. Menos carros, menos ônibus, menos transeuntes.

Notou que eram só ele, a luz do poste, a árvore sob a qual se sentara, a praça e Deus. Orou franca e longamente. Não sabe quanto tempo foi, o que não teve a menor importância. Sentiu-se bem. Viu que era tarde e se recolheu em casa.

Na manhã seguinte, acordou querendo ficar na cama. Tomou um banho. Vestiu-se e foi para o escritório. A pé, como de costume, algo de que ele gostava muito. Viu-se em frente a um café bem simpático. Passou direto, mas resolveu voltar.

– Mereço um café bem gostoso.

Fez o pedido no caixa, pagou e pegou seu desjejum no fim do balcão quando chamaram seu nome, escrito à mão no copo de papel encerado.

Sentou-se, lendo o caderno de cultura do jornal distraidamente, sorvendo o café quente e levemente adoçado, mordendo de vez em quando o pão de queijo.

Uma moça, na mesa ao lado, tentava disfarçar, olhando para aquele rapaz de cabelos escuros, ainda molhados. Ele, de óculos escuros, também disfarçava, notando que ela olhava com seus olhos brilhantes. Já a conhecia de vista, de outras andanças pelo bairro, sem ter dado muita atenção antes. Ela pegou a bolsa, pagou e saiu, não sem antes dar uma última olhadinha sorrateira, com um sorriso franco e discreto no canto da boca.

Ele sorveu o último gole do café fresquinho e cheiroso. Saiu, com o sol no rosto, respirou fundo. Sorriu, bem de leve. E tomou o caminho oposto ao da moça.

A vida tem que continuar.

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