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Cena de um shopping

Observar é a arte de participar da vida lá fora sem interrompê-la

Por Marcelo Cypriano / Thinkstock
marcelo.cypriano@arcauniversal.com

Ele estudava em pleno domingo. Era o único dia do qual dispunha para isso. Fazia isso num café de um shopping, pois em casa se dispersava nas obrigações domésticas. O centro comercial tinha seu movimento de sempre, mas que não dizia respeito diretamente ao estudante, então ele se concentrava sem dificuldade.

Muito tempo escrevendo, e as pausas eram necessárias de vez em quando. Parava alguns minutos para tirar os olhos dos livros e simplesmente “ver a vida passar” lá fora, através dos vidros – isso relaxa mais do que pensamos.

É mesmo mais fácil conseguir essas pausas num lugar que convide à contemplação do que em casa, onde mil coisas interrompem a todo momento. Um telefone que toca, a tevê teimosamente ligada sem ninguém assistindo a nada, alguém que chama.

Ele estava numa poltrona em um canto do estabelecimento, voltada para o movimento do shopping e da calçada. Foi nessa de passar o tempo entre um capítulo e outro dos livros e apostilas que uma cena lhe interessou.

Uma moça em seus vinte e poucos anos passou, com uma cara não muito boa. Embora bonita, confortavelmente vestida para um dia quente, ela estava com o semblante triste, meio pesado até. Parava em frente às vitrines olhando, mas não vendo. E continuou assim por longos minutos até sumir do campo de visão.

Algo em torno de meia hora depois voltou, com a mesma expressão entre tristeza e tédio. Até que seu celular vibrou na bolsa.

Ela pegou o telefone sem muita vontade e levou-o ao ouvido, displicentemente. Mas ao ouvir quem ligava do outro lado, despertou de imediato. Recostada a uma coluna, um sorriso começou a nascer naquele rosto até então triste e meio vazio. Não demorou muito e ela sorria entre lágrimas, tentando enxugar os olhos com a mão, sem sucesso.

Começou a caminhar pelo corredor do shopping, mais ouvindo do que falando. E sempre chorando. Mas era um daqueles choros que tiram um senhor peso dos ombros. O choro, aos poucos, foi se transformando num sorriso, ainda que entre lágrimas. Voltou e sentou-se a uma das mesinhas externas do café. Ficou ali quietinha, acompanhada por seu sorriso molhado, contando com a sorte de os atendentes daquele café terem como regra não perturbar os clientes.

Após um visível suspiro, com a expressão bem mais leve, rosto já seco, mas um pouquinho inchado e avermelhado, levantou-se, entrou e pediu uma bebida gelada. Parou em frente a uma estante e escolheu uma bonita caneca de louça da cafeteria, que pediu para embrulhar para presente. Escolheu com tempo, paciência, e, sem perceber, fazia até um certo carinho na peça escolhida, esperando a atendente pegá-la para embalar.

E saíram, de uma forma muito mais agradável de se ver, a moça bonita, a bebida refrescante e colorida, a caneca de presente e um sorriso tão gostoso que ganhou companhia no rosto do estudante cansado, que via tudo enfiado lá na poltrona do canto.

De volta aos livros.

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