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publicado em 05/12/2012 às 04h50.
Cotidiano... No metrô
A mãe, o filho, o suposto namorado e um lugar lotado...
“Tá vendo essa roda aqui no meu dedo? É uma aliança! Droga! Vê se me deixa em paz, mermão...”
Ela olha para ele com desprezo. Ergue os olhos claros do rosto apagado pelo loiro desbotado do cabelo. Veste um vestido rosa choque.
“Tá entendendo, mermão!”
Ele se aproxima ainda mais, mostrando o dedo anelar a poucos centímetros do nariz dela. Mas ela o despreza novamente.
O menino, com cara de filho do casal, parece indiferente. A conversa não é com ele, é com a mãe.
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O olhar dela continua cheio. Não é mais desprezo o que sente. É tristeza. Vergonha. Os transeuntes também a olham. Olham-no. Passam reto.
“Se continuar me enchendo o saco tu vai ver o que te acontece... Não vai nem querer saber o que te acontece...”
O vento bate. Os cabelos longos não esvoaçam. Eles parecem não querer distanciar-se dela nem por uns segundos, numa distância entre o ar e as costas. Parecem temer serem agarrados, enrolados e arrancados. Eles não querem causar dor. Mais dor do que a dona daquela cabeça pequena e proporcional está sentindo.
“Tá ouvindo? Some da minha vida!”
Ela não ousa falar. A mão dele ainda está a um palmo do rosto dela. Aberta. Tesa. Maquiavélica.
Ela se encurva para trás. Sente-se ameaçada, mas não recua. Apoia-se com uma das pernas nas malas que titubeiam cair.
Ela segura com os dentes cerrados a lágrima que está na iminência de pular dos olhos no tempo e na frente da pessoa errada. Ela não quer isso. Não quer dar esse gosto salgado àquele homem alto e magro que fala com a boca e com as mãos, não somente com os olhos afiados.
O menino, porém, não tem a mesma força da mãe. Diante de estranhos de passos apressados e apertados, e debaixo dos olhos ocupados e distantes da mãe, ele chora timidamente. Ela não o percebe, tampouco o homem que a agride com palavras e gestos curtos.
Depois de uma pausa, silêncio – do homem, que falava sozinho. Ela permaneceu muda durante todo o tempo. Somente o ignorou. Pegou as malas já caídas no chão e se preparou para sair. Para ela, o show já havia acabado. Não para ele, que a agarrou pelo braço, obrigando-a a ficar. Desta vez, ela o fitou brava e não teve mais medo. Soltou-se.
E assim ele a deixou, quando ouviu o soluço já audível da criança.
O menino olha para trás, na tentativa de encontrar o pai, ainda na estação. Impossível. Porque assim como ele permanecera invisível durante toda a discussão unilateral, o homem também sumira de sua vista.
O que pensar vendo uma situação como essas em um local público e lotado?
Que perante a multidão que nos aperta, as pessoas se mostram cada vez mais desunidas? Que a discussão quase silenciosa do casal é o espetáculo que exterioriza as tragédias familiares? Que a mulher teve coragem suficiente de se livrar uma vez, mas não tem certeza se conseguirá na próxima? Que o homem que se foi e se desviou da procura da criança não poderá escapar da própria consciência? Que a criança que olha para trás hoje é a mesma que terá sua personalidade alterada pela desestrutura familiar amanhã?
“Ensina a criança no caminho em que deve andar; e ainda quando for velho, não se desviará dele.” Provérbios 22:6
E, para isso, os pais também precisam se encontrar.
