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publicado em 15/09/2012 às 04h50.
Não basta morar
O modo como você se relaciona com um lugar pode trazer uma nova forma de vê-lo

Uma coisa é morar numa cidade. Outra é fazer parte dela.
Algumas grandes cidades brasileiras têm mais moradores do que participantes de sua vida. As pessoas saem do casulo principal (sua casa), entram em um casulo móvel (o carro), entram em mais um casulo, um pouco maior (o trabalho) e depois voltam ao casulo do início do dia.
Só que quase ninguém vira borboleta.
Permanecem lagartas dentro desses casulos diários, para depois soltarem a seguinte pérola:
– Ai, não gosto dessa cidade!
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Bem, para gostar, é preciso conhecer. Quem espera conhecer algo se, em casa, nem mesmo olha pela janela? Só vê algo na rua (quando vê) através dos vidros temperados dos carros. Há quem saia de casa pela manhã e volte à note sem nem mesmo pôr os pés numa calçada.
Uma cidade é como um organismo vivo. Ela depende de cada um de nós correndo em suas veias. Se somos células produtivas, anticorpos ou nocivos vírus na saúde dela, depende de nossas atitudes. Isso quando tomamos alguma. Não adianta reclamar sem fazer nada.
E participar da cidade começa na sua calçada, sua rua, seu bairro. O início de tudo é conhecer a vizinhança, conversar com o jornaleiro, o porteiro, o morador do apartamento ao lado. Não é só questão de enxergar os problemas, mas saber, também, as coisas boas que existem bem pertinho e você nem conhecia.
As cafeterias, carinhosamente também conhecidas como cafés, são um costume urbano que se tornou algo necessário há séculos. Neles a vida acontece, fique você num café por alguns minutos ou várias horas (há quem goste de estudar e até fazer algum trabalho pelas mesas).
Tudo isso foi dito só como introdução para uma historinha real. Foi justamente num café de uma cidade brasileira de porte médio que um dia meio desagradável revelou gratas surpresas. Mas essa reviravolta só foi possível porque me dispus a me enfiar na vida daquela cidade então estranha para mim, ao invés de ficar no enfadonho hotel em que me encontrava, por causa de um longo trabalho que já levava meses.
Na verdade, era um dia de folga (raro) bem chato, um tanto triste até, daqueles que você quer encurtar ficando até mais tarde na cama...
Tentando recuperar algo dele, dei uma caminhada até chegar ao café do casal de amigos estrangeiros gente boa, que eu já conhecia de outras estadias. Lá, uma surpresa: a netinha deles, com um avental igualzinho ao dos avós – só que em miniatura, claro – “servia” e entregava os folhetos da casa, que tirava do bolso do avental. Brincava de trabalhar e aprendia, ao mesmo tempo (e atendia melhor do que muita gente que se acha profissional).
Como de praxe, o casal me dava o controle remoto da tevê a cabo para eu me distrair após ter lido todos os jornais e revistas novos. A loirinha sentou-se comigo no sofá e, sem querer, começamos a “zapear”, procurando algo interessante na grande televisão. Paramos no repeteco da reprise da reprise de um filme infantil e colorido com o Jim Carrey.
Eu, de repente, me esqueci da tristeza e do desânimo daquela época, e me pus a rir como se também tivesse os 6 anos da menininha de cabelos encaracolados. Ri com vontade, como se assistisse ao filme pela primeira vez. Ri até mesmo das coisas mais bobas (venhamos e convenhamos, o filme era benfeitinho).
Depois, a loirinha foi para trás do balcão, tirou o aventalzinho, dobrou com o maior cuidado, pôs na pequenina mochila florida de pano que levou às costas.
Veio, me deu um beijo molhado de criança, na bochecha.
E foi-se embora, segurando a mão da avó pela calçada afora. Eu a acompanhei quieto com o olhar, até ela sumir numa esquina bem longe.
Mal sabe ela o bem que fez.
Ela foi, mas seu sorriso gostoso ficou.
E olha...
Não vai sair daqui de dentro tão cedo.
