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publicado em 24/09/2012 às 04h50.
Passageiros
Nem sempre um contato com alguém é direto

O trem avança em uma velocidade nem alta, nem baixa, o que possibilita apreciar a paisagem distraidamente. Poucos passageiros espalham-se pelo vagão, relaxados e confortáveis. Um jovem, recostado ao vidro da janela, disfarçadamente olha uma moça do outro lado do vagão, a ler um livro do qual ele não consegue ver o título. Ela lê com atenção, num misto de compenetrada e relaxada. Pelo visto, o texto é agradável e a faz pensar em coisas boas, pensamentos denunciados pelo leve sorriso, que em certos trechos da leitura e dos trilhos aumenta, tornando-se um sorriso completo. Logo depois, volta a ser leve, mas constante.
Não há vento, pois os vidros do trem são fixos. Mesmo assim os cabelos da moça, ondulados e castanhos, parecem se mexer levemente, como que tocados por leve brisa. O rapaz aproveita a distração dela com o livro para olhar mais. Dos cabelos, muito bonitos, ele desce o olhar para o rosto róseo, com pouquíssima maquiagem, sinal de quem se cuida bem, mas não é escrava da vaidade. De onde ele está não dá para ver se ela não usa batom ou, se usa, é bem clarinho. Brincos bem pequenos, discretos, cujo valor está mais na beleza que em quanto custaram. No pescoço, uma correntinha bem fina, dourada, com um pingente qualquer que não dá para distinguir de longe. Seu vestido, de uma estampa com flores pequenas, a deixa com um ar ainda mais primaveril. Leve e confortável, vai até pouco abaixo dos joelhos, expostos por ela estar sentada. Uma sandália leve expõe seus pés delicados e bonitos. O ar-condicionado a obriga a usar uma jaqueta jeans por cima do vestido, nem clara nem escura, mas com cara de que já andou por muitos trens, confortável pelo uso. Curiosamente, não destoa do ar primaveril do restante da roupa, produzindo um aspecto um tanto quanto urbano, mas feminino, delicado.
Ela cruza as pernas e balança o pé levemente, e ele quase consegue ver o título do livro bem encadernado, capa dura e gasta, que já enfeitou alguma estante de sala e repousou em alguma estante de sebo. Mas a mão da jovem, com um anel fino e discreto, com um simples brilhante que cintila ao sol suave, esconde as pequenas letras ainda douradas da lombada. O sorriso continua em seu rosto. Ele a contempla por mais uns instantes. Os olhos claros da moça recebem lampejos emprestados da luz do sol. O rapaz não sabe ao certo se azuis ou verdes... só sabe que são bonitos.
Pela primeira vez, ela levanta os olhos do texto e dá uma olhadela em volta. Quando seu olhar passa pelo rapaz do outro lado do corredor, ele disfarça e olha pela própria janela. Pode não parecer, mas ainda é bem tímido, embora seus amigos achem o contrário. Ela olha distraída a paisagem pelo vidro. Os campos passam correndo ao longe, contrastando com a calma no interior do trem.
A moça checa o pequeno relógio dourado de pulso, pega a bolsa que está no canto da poltrona e se levanta, deixando o livro sobre o assento, marcando lugar. Sua bagagem, uma bolsa esportiva grande de nylon, ficou no bagageiro do teto, com a etiqueta de identificação pendurada na alça. Ela sai pela porta logo atrás do jovem, que está nas penúltimas poltronas do vagão.
A voz nos alto-falantes, discreta, diz que estão chegando à estação em que o jovem tem que descer.
Ele escreve algo num bloco de anotações. Arranca a folha, dobra duas vezes. Levanta-se e vai para perto da poltrona da jovem, mas resiste a ler seus dados na etiqueta da bagagem e o título do livro.
Manterá o mistério.
Coloca o papel sob o livro.
Para quando ela voltar.
“Obrigado pela viagem muito agradável que você me deu, sem nem mesmo saber disso.”
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1 Comentário(s)
Christina Moura Postado em:
Amei o texto, que lição preciosa !!! Aprendi que como servas do Senhor, devemos proporcionar agradáveis momentos sempre. Abraço carinhoso. Chris/Acre
